Babe - Bragança // O termo da aldeia Por: / Secção: O Olhar / 12-03-2010 · 4 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo
Marras, pedras fincadas no chão, marcam os terrenos públicos de todos os que podem dizer: "sou de Babe"A Junta de Freguesia de Babe, no concelho de Bragança, organizou uma visita às marras que demarcam o território da aldeia. O propósito era que os mais velhos dessem a conhecer aos mais novos a localização desses marcos. Esta era uma tradição antiga que corria risco de se perder. Já há alguns anos não se realizava o que, em outros tempos, era também um dia de festa, de união de todos os residentes em prol do bem comum. Todas as aldeias do Nordeste Transmontano, pelo menos, têm um território, mais conhecido como “termo”, que pertence a todos os habitantes dessa aldeia. Esta determinação geográfica, que redistribui a propriedade pública (os baldios), por todos os habitantes, de forma igualitária, é muito antiga, muito anterior a determinações como as juntas de Freguesia, ou as paróquias que, normalmente, congregam mais do que uma aldeia. Independentemente da propriedade privada, o termo, designa os limites do que pertence a determinado aglomerado populacional. Quem se pode dizer cidadão desse aglomerado, tem direitos semelhantes aos outros cidadãos sobre esse território. Pode até nem ter propriedade privada, mas tem sempre um pedaço de chão que partilha com aqueles que são “do povo”, da aldeia. Esta organização antiga, própria de uma organização social que tinha por base a partilha de alguns bens e serviços, de alguma terra e de algum trabalho (o trabalho comunitário), é, actualmente, em certos locais mais despovoados, terra de ninguém, “mato” de oportunidade. Em Babe, os mais idosos, ainda fazem questão de lembrar aos mais novos que, esta terra, é sua, é a terra da aldeia, o termo, o território, cercado de marras, marcos, que determinam o local onde sempre podem ter solo que lhes pertence debaixo pés. Ainda assim, há cerca de 20 anos, não se realizava uma visita às marras. Para dar a conhecer aos mais novos o termo do povoado, para que nunca o esquecessem. Por vezes, os mais novos deviam dar com a cabeça na marra (devagar, com certeza), para que lembrassem bem aquilo que antes era essencial para a vida em comum. Nazaré Frutuoso, um dos mais velhos, contou-nos que se tratava de uma tradição antiga que já há alguns anos que não se fazia. “Agora terminaram de as ir a ver. Que terminem para outro Domingo”, sublinhava, por causa do frio, da chuva miúda, a ameaçar neve. Até porque o termo é grande: “São muitas, pega com Labiados, Sacoias, Vale de lamas, Gimonde, Milhão, Palácios, Caravela. São muitos sítios. É um termo bom”. Antigamente a visita fazia-se a pé, em vários grupos. No fim, “juntávamo-nos aí na Lameirona e depois vínhamos todos ao p’ra cima a encher a barriga de vinho”. Na altura era ele um dos novos, que já tinha ido a aprender, mas, agora, “os novos não querem ir. Têm medo de andar”, replicou pessimista. A Junta de Freguesia local organizou a visita, no dia de Carnaval, como era da tradição. Mas estava uma manhã muito fria. Havia neve nas bordas dos caminhos. Babe fica lá no alto, depois de Gimonde. Talvez pela sua situação estratégica e pela riqueza dos campos, “onde se produz todo o fruto”, permaneçam restos de castros, dos antigos que, um dos mais idosos lembrou, tinham pedras fincadas em torno. As pedras, essas, foram indo embora. Com os tempos, seriam necessárias para outros usos, para contar outra história, em casas de pedra que hoje ficaram “submersas” em vivendas, muitas delas feitas com dinheiro do esforço da emigração, do trabalho no estrangeiro que muitos dos locais não abandonaram ainda. Mas sempre voltam. Não foram embora sem olhar para trás, como, por vezes, aconteceu. Babe, “a proa da Lombada”, continua a ser grande, a ter muitos jovens, a viver com orgulho, pelo menos mais uma geração, mais uma festa dos rapazes, à qual, os que estão fora, sempre vêm. Moderna, tem agora também festas das raparigas. Nas últimas festas, eram 50 rapazes para 50 raparigas, em números redondos. Aqui não há mais discriminação. Toda a gente tem direito a festas. A ver as marras, no entanto, nem todos se manifestaram tão solícitos. É muito difícil acordar bem cedo, num dia que em tudo convida à lareira, ao descanso do lar, depois da noite da folia. Mas também não era período de férias. Os mais velhos também diziam que não era dia bom, para fazer visitas, e acabaram por cancelar, se assim se pode dizer, o trabalho comunitário (limpeza de caminhos e outros bens públicos) também marcado para esse dia. Ainda assim, foi possível formar um grupo valente de visitadores de marras. Antes faziam-se vários grupos, de modo a poder cobrir todo o território. Este ano, o grupo de voluntários percorreu parte das delimitações. O resto ficou para um dia de Primavera, altura que poderão terminar o passeio como se fazia antes, partilhando a merenda e bebendo o vinho. Naquele dia, foi preciso coragem aos participantes para se empoleirarem numa carrinha de caixa aberta e enfrentar o ar gelado. Até à primeira marra, situada um pouco acima da igreja, a visita foi feita a pé, o que deu para aquecer um pouco, para o resto da viagem. Rui Alves, um dos novos, com 18 anos apenas, disse-nos que, apesar do frio, estava a ser engraçado e que era importante adquirir este conhecimento. Bruno Veiga, de 23 anos, disse que veio para “para aprender o terreno de Babe”, porque também é importante para os mais jovens conhecerem a aldeia e os seus limites. Bruno gostava que tivessem ido mais pessoas da sua idade. “É sempre importante saber o terreno que nós temos. Estamos a conhecer o que é nosso, nada mais”.
Tudo morre, ou tem um fim
Antes da visita, os mais idosos, no largo ao pé da Junta de Freguesia, contaram-nos um pouco desta e outras tradições relacionadas com o território da aldeia. No final, a conversa correu para os inevitáveis lamentos do fim da agricultura por estas bandas. António Luís Sousa, um dos idosos que fez questão de acompanhar a visita às marras, explicou-nos que, quando era miúdo, no dia em que “se terminava um conselho, iam dois pelo termo e, se houvesse um gado a pastorear dentro do terreno de Babe, chegavam lá, tiravam-lhe dois guizos e traziam-nos”. O dono do gado tinha então de ir a Babe pagar a multa ao povo. “Punham-lhe um preço, na altura era um almude de vinho, para beberem depois todos no conselho. Era esse o resultado”. A multa só era aplicada a gados de fora da aldeia. Nas outras aldeias, se encontrassem lá um gado de Babe, faziam igual. “Agora isso acabou”. Já não há multas, até porque também quase não há gado e terrenos para pastorear não faltam. “Aqui só há um gado na aldeia. Em Gimonde acho que só há outro. Isto acabou. Mas sabe quantos gados havia na altura, quando eu era novo? Havia 18 rebanhos, só em Babe. E muita cria de jugo”, sublinhou. Por isso era tão importante zelar pelo bem comum, pela terra dos residentes. Tal como os gados, as “crias de jugo” (vacas ou bois amansados para trabalhos de tracção animal), também acabaram. Todos tinham pelo menos duas vacas, essenciais para lavrar as terras, antes de virem os tractores. “Era o que havia para trabalhar. A gente tinha que amansar vacas e trabalhar com elas”, interveio Celedónio Caseiro. Agora “há oito que têm vacas, mas têm 12, a 30 e a mais”, contou-nos, António Luís. Mais uma vez, se repetem as queixas sobre “o fim da agricultura” na Lombada, em todas as terras. Agricultor, desde sempre, sente-se o prazer do senhor António Luís por esta profissão, tão desprezada nestas terras mais frias. “A agricultura era uma coisa em que a gente andava tranquila. Trabalhava-se e não rendia o tempo, mas o jeito agora está que acabaram com ela. Nós, agora vamos a fabricar, por exemplo, cereal. Vamos a vender o cereal a 12 cêntimos, vamos vender as batatas a 12 cêntimos. Isso não recompensa! Depois vamos comprar gasóleo caro, vamos comprar adubos caro...! Assim não se pode viver, temos que acabar com tudo”. E em Babe, acrescentou o grupo de vizinhos, dava-se tudo desde o “cereal, batatas, vinho, azeite, tudo”. No entanto, “morre, morre tudo”. À lista do que se dava e já não dá, Manuel Ferreira acrescentou o serôdio e perguntou-nos se sabíamos o que era. Depois explicou: “era a coisa que dava mais, naquela altura em que a vida era barata. Ia-se a vender às padeiras de Bragança uma carguita, numa burra, e dava dinheiro”. O serôdio é um cereal, semelhante ao trigo, que se dava apenas em terras mais férteis e melhor tratadas. De crescimento rápido, era semeado em Maio e colhia-se quando o trigo e o centeio, em Julho e Agosto. Com tudo isto, os novos deixaram a agricultura, o que Manuel Ferreira considera “justo”, inevitável. “Ainda havia força de trabalhar nestas pessoas já de uma certa idade, da era de 34 em que eu nasci (e o meu primo de 35). Ainda tínhamos força de vontade de não deixar perder os prédios, de fabricá-los, de dizer “eu tenho aquele prédio zelado”. Mas nós já não podemos, os jovens uns foram para o estrangeiro e outros para GNR, para a Polícia, outros tiraram cursos, e só querem sair daqui”, contou-nos o senhor Caseiro. Este ano, queixaram-se os vizinhos, nem a azeitona conseguiram colher, porque na altura em que os filhos vieram ajudar os pais, na época de Natal, esteve sempre a chover ou nevar e não deu. “Vieram para ajudar, mas o ano não ajudou, foram com os mesmos cantares. Não conseguiram ajudar o pai, nem a mãe. A chover ou a nevar, nunca se conseguiu fazer nada. Quem teve que se aguentar, fui eu. A mulher também não pode. Cada dia trazia umas poucas, mas ainda deixei um olival com 28 oliveiras por apanhar”, confessou Celedónio Caseiro e todos os outros confirmaram que também lhes aconteceu algo semelhante. Semelhante ou não a visitas de outros tempos, pelos menos parte das marras que limitam o termo de Babe ficaram marcadas a tinta em spray e as restantes também serão, como a marca que diz, pelo menos em 2010, o povo de Babe é ainda um povo. É que esta palavra, nas terras em que estamos, é também sinónimo de aldeia. O povo é a aldeia (a sua parte humana) e a aldeia é de quem a ela pertence.

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