Página Inicial | Terça-Feira, 7 de Setembro de 2010

Automobilismo // Prego a fundo rumo à internacionalização Por: Daniel Faiões/ Patrícia Posse / Secção: Desporto / 26-06-2008 Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Daniel Faiões / Patrícia Posse Pilotos arrancaram vários aplausos da assistência
Adrenalina e velocidade cruzaram-se na pista de Vila Real

Cerca de 100 mil pessoas assistiram ao 41º Circuito de Vila Real, que decorreu no último fim-de-semana, dias 21 e 22. Foram 189 os pilotos que percorreram os 4,6 quilómetros do circuito citadino, nas sessões de treino de sábado e nas onze corridas que marcaram o dia de domingo. Das 9h às 19h, os motores fizeram-se ouvir nas ruas da capital de distrito. Neste que é o segundo ano da “era moderna” do Circuito Automóvel de Vila Real, em virtude de ter estado interrompido por falta de condições de segurança durante 16 anos, é agora tempo de novas metas. Havia já este ano a perspectiva de conseguir incluir uma prova internacional, mas tal ficou adiado, sendo essa a próxima etapa. De quarta-feira a domingo, estiveram em Vila Real Eduardo Freitas, Director de Prova permanente de WTCC, e Carlos Bertrand, presidente da Comissão de Segurança da Real Federação Espanhola de Automobilismo e membro da Comissão de Circuitos e Turismos da Federação Internacional de Automobilismo (FIA). Ambos analisaram em pormenor as características relacionadas com a segurança, bem como as melhorias que devem ser feitas para que o Circuito possa garantir a internacionalização. Para já, o actual traçado não corresponde às exigências da FIA, uma vez que foi referenciado como sendo demasiado rápido. Rever algumas das escapatórias, sobretudo na saída de algumas rotundas, e aumentar a área do paddock são também aspectos a ter em conta. Quanto às sugestões dadas pelos inspectores da FIA, Manuel Martins, presidente da autarquia vila-realense, mostra-se favorável, tendo avançado ao Mensageiro algumas das alterações que poderão ser introduzidas já na próxima edição. Neste momento, os inspectores apontam para a recta de Mateus e temos que pensar num paddock com um hectare ou perto disso naquela zona.” Este investimento representará um valor acima de um milhão de euros, segundo o autarca. O presidente da Câmara referiu ainda que há necessidade de se encontrarem “soluções técnicas para que as pessoas não fiquem fechadas ao fim do dia de provas”. Para minimizar o transtorno causado à população que necessita de utilizar o traçado para chegar à sua habitação, Manuel Martins afirmou que já estão a ser pensadas formas alternativas, mais simples, para permitir o acesso dos moradores que vivem nas imediações do Circuito.
As provas internacionais exigem também mais segurança. Por isso, em certas zonas “terá de haver uma segunda rede de protecção”. “Haverá a rede que está colocada, um espaço de um ou dois metros entre as redes para que os técnicos possam circular livremente e a segunda rede será uma malha talvez mais alta e fina”, afirmou Manuel Martins. Caso estas alterações tenham lugar em 2009, haverá a possibilidade de solicitar à FIA a homologação da pista no Grau 4 ou então um pedido para Grau 3, nível mais exigente. Na eventualidade de haver um sinal verde para esta homologação em Grau 3, o Circuito de Vila Real poderia receber provas com viaturas de Grande Turismo ou mesmo monolugares de Fórmula 3. Caso o paddock seja transferido da área envolvente ao Teatro Municipal de Vila Real para a zona da recta de Mateus, a autarquia tem já definidas outras utilizações. “A ideia não será propriamente ter um espaço só para as corridas, mas que seja um parque de estacionamento periférico para os transportes urbanos e para o transporte pesado de mercadorias”, afirmou Manuel Martins. Depois do Circuito, o espaço poderá ser utilizado como parque de estacionamento para ligeiros. “As pessoas que vêm da zona nascente da cidade, podem ali ter um local para deixar o carro, apanhar o autocarro e vir trabalhar para a cidade”, explicou.

Procura ultrapassou oferta

A realização de um Circuito desta dimensão traduziu-se em ganhos para o ramo da restauração e da hotelaria. Em 2007, dados da Região de Turismo da Serra do Marão revelaram que a taxa de ocupação atingiu os 85%. Até ao fecho da edição, não foi possível contactar a mesma fonte, sabendo-se, no entanto, pela voz do presidente da câmara, que “os restaurantes estão cheios e não há lugares na hotelaria até Lamego”, o que poderá indiciar que a taxa de ocupação ultrapassará o valor do ano passado. Manuel Martins avançou mesmo que este ano estiveram na cidade mais 10 a 20 por cento de pessoas que no ano transacto.

Acertar agulhas

O autarca vila-realense reconheceu que foi “um erro” não contemplar no programa de sábado algumas corridas. “Devia haver uma prova ou duas, isso teria feito com que aparecesse mais gente. Mas também se aprende com os erros.” Refira-se que no sábado os pilotos apenas realizaram as habituais adaptações à pista, bem como os treinos cronometrados. Também Jorge Fonseca, presidente do Clube Automóvel de Vila Real, admitiu que houve alguns incidentes ao nível da distribuição de prémios. “São muitos prémios, por vezes há confusões. Há pilotos que correm em diversas corridas e esperar por um desses pilotos vai atrasar o pódio e depois atrasa os restantes, em cadeia”, explicou. O dirigente afirmou ainda que é necessário melhorar o sistema de vídeo “que não funcionou”.

A bandeira axadrezada como pano de fundo

Das seis categorias em competição, o Campeonato de Portugal de Circuitos (PTCC) foi a prova rainha da 41ª edição do Circuito de Vila Real. César Campaniço e Francisco Carvalho viram a vitória sorrir-lhes. A primeira corrida foi ganha por César Campaniço, tendo sido declarado vencedor na secretaria depois de terem sido descontados 25 segundos a Francisco Carvalho, que viria a ganhar a segunda corrida. Já em 2007, Francisco Carvalho tinha saído vencedor nesta categoria. No Campeonato Nacional de Resistência, Pedro Salvador alcançou a vitória nas duas corridas de forma contundente. Na primeira, chegou mesmo a deixar o seu mais directo opositor a uma volta de distância, enquanto na segunda, os pilotos que o seguiam necessitaram de mais 50 segundos para completar a prova. Joaquim Jorge destacou-se no Campeonato Portugal Clássicos Circuitos, fazendo segundo lugar na primeira corrida do dia, e averbado uma vitória na segunda prova. Esta última terminou à sexta volta por ter ocorrido um acidente na rotunda que antecede a recta da meta. No Challenge Desafio Único, prova que coloca em pista o maior número de pilotos e máquinas, venceu a dupla António Areal/Jorge Areal, que ao volante do Fiat Uno cortaram a meta, tendo no seu encalço a equipa composta por Nuno Duarte e Adruzilo Lopes que chegou ao fim separada dos primeiros por ínfimas décimas de segundo. Carlos Barbot e o seu Porsche 935 Turbo fizeram as delícias da assistência, pela beleza do monolugar e pela qualidade da condução, motivo que levou à vitória nesta competição. Este veículo entrou em pista na Corrida 30 Anos, prova única criada especificamente para comemorar o 30º aniversário do Clube Automóvel de Vila Real. No Campeonato Português Clássicos Circuitos 1300, Paulo Antunes e o seu Datsun 1200 conquistaram lugar de destaque ao conseguirem o segundo lugar na primeira corrida e uma subida ao primeiro lugar do pódio na segunda entrada em pista.

No decorrer das corridas

Na tarde de sábado, dia 21, numa visita ao paddock, o Mensageiro encontrou Joaquim Jorge, um dos pilotos que compete no Campeonato Portugal Clássicos Circuitos (CPCC) com um Ford Escort RS 1600. Por esta altura, o piloto preparava mais uma sessão de treinos cronometrados e previa algumas dificuldades. “Tenho a caixa com problemas, não tenho nem segunda nem terceira, mas vou tentar fazer três voltas para conseguir alcançar um tempo para a grelha.” Em relação ao número de pilotos participantes, Joaquim Jorge considerou que “este é um circuito mítico, logo era de esperar mais concorrentes”. Em termos de condições de pista afirmou que houve melhorias e que ao nível da afluência do público, “hoje [sábado], não se esperava muito mais, fizemos apenas os tempos livres, mas penso que amanhã o público em Vila Real não vai faltar”. Sobre a segurança do traçado, Joaquim Jorge afirmou que a esse nível o circuito “está bom”, salvaguardando que “todos os circuitos citadinos são assim [perigosos], mas em termos de segurança este não apresenta problemas”. O piloto acabaria por ficar em segundo lugar na primeira corrida de domingo, atrás do Porsche 911 RSR de António Barros. Com o seu Ford Escort RS saiu vencedor da segunda corrida, deixando a 49 segundos Alexandre Rebelo, também ele aos comandos de um Porsche 911RSR. Ao contrário da corrida 1, onde foram efectuadas as 11 voltas previstas, na segunda apenas se cumpriram seis. O acidente junto à rotunda que antecede a recta da meta condicionou a finalização da corrida, acabando por terminar antes do previsto.

Afinações técnicas entre corridas

No intervalo das duas corridas da categoria de PTCC (um hiato de cerca de 45 minutos) espreitaram-se os motores do único Peugeot 407 em competição. O objectivo era saber o que poderia ser feito ao nível da mecânica para que João Figueiredo conseguisse obter na segunda corrida algo mais do que o terceiro lugar obtido na primeira. Carlos Barros, director técnico da Peugeot e chefe da equipa de mecânicos que apoiava o piloto, falou das características do carro, revelando que a máquina consome, aproximadamente, 2,1 litros de combustível, o que perfaz cerca de 45 litros a cada 100 quilómetros. “O Peugeot 407 atingiu este ano a velocidade máxima de 211 Km/h, ultrapassando os 208 Km/h do no ano passado. Nós sabemos que nas curvas lentas, principalmente nas rotundas e nos ganchos, perdemos para os nossos adversários mais competitivos como o Francisco Carvalho [que acabaria por vencer]”.
No sentido de obter uma melhor prestação, Carlos Barros referiu que, para compensar um pouco a “falta de tracção” notada no carro, eram necessárias algumas alterações. “Após termos efectuado onze voltas [duração da primeira corrida], podemos ver o desgaste dos pneus e a partir daí alterar algumas afinações de geometria, de forma a meter mais pneu no chão. Mexemos também ao nível dos amortecedores para ter toda a potência no chão”, explicou. O acompanhamento técnico do Peugeot 407 envolveu a presença de três mecânicos, um assistente que fazia as telemetrias e coordenação do director técnico. A verdade é que as afinações foram frutuosas, tendo o jovem piloto de Coimbra alcançado o segundo lugar do pódio na segunda corrida.

Infortúnio trava Manuel Fernandes

O piloto vila-realense teve este ano uma participação desafortunada nas duas corridas em que participou. Por causa de uma afinação mal calculada nas boxes, que impediu a entrada em pista e de uma saída de pista na segunda corrida, Manuel Fernandes não concluiu nenhuma das provas em que participou. Na edição anterior, o piloto alcançou um sétimo lugar na primeira corrida e ainda uma extraordinária subida ao terceiro lugar do pódio. “A prova da manhã correu terrivelmente mal. Sem querer, o meu mecânico deu um toquezinho no radiador da água quando íamos sair para a prova. O radiador furou e não pudemos fazer a primeira prova”, explicou o piloto. “Já corrigimos e agora vamos para a segunda prova. Veremos como corre”. Infelizmente para Manuel Fernandes e para os milhares de vila-realenses que o apoiavam, a segunda corrida terminou sem o piloto ver a bandeira axadrezada, uma vez que foi obrigado a abandonar. Manuel Fernandes considerou que houve um aumento da segurança da pista, relativamente a 2007. “Havia partes que estavam ligeiramente tapadas, mas este ano conseguiram pô-las de maneira diferente”, destacou. O piloto mostrou agrado nas alterações efectuadas no traçado, sublinhando que “a pista está bem delineada, exigente e conta com curvas rápidas e lentas. Tem as características que tinha o Circuito há uns anos atrás e eles conseguiram manter esse espírito”. Relativamente à pista afirmou que “está cada vez melhor”, opinião partilhada pelos pilotos com quem trocou algumas impressões ao longo do fim-de-semana.

Primeiro pódio do dia

O primeiro piloto a abrir o champanhe da vitória foi Pedro Salvador, vencedor da 1ª corrida do Campeonato de Portugal de Resistência. “Para mim tem sempre um significado especial vencer em Vila Real, porque é a minha região e é um Circuito onde comecei a ver corridas, se calhar onde o bichinho despertou há muitos anos atrás.” O piloto flaviense confessou que “as muitas ultrapassagens, algumas bastante confusas”, foram o maior obstáculo da prova. Em matéria de segurança, Pedro Salvador defendeu a organização, dizendo que “quem critica a segurança deste tipo de circuitos não deve ter a noção da dificuldade que é montar um traçado destes e das próprias condicionantes que o espaço em si impõe”. Para o piloto, o Circuito de Vila Real reúne “condições muito melhores que o Circuito da Boavista”. “Se o da Boavista tem direito a Campeonato do Mundo, o de Vila Real também devia ter esse estatuto, porque exige muito mais técnica e tem mais gente”, concluiu. Ao volante do Juno SSE, um monolugar com 184 cv de potência e 1299 cm³ de cilindrada, Pedro Salvador conseguiu a velocidade máxima atingida no circuito. Já na edição anterior, se tinha sagrado campeão e recordista do melhor tempo no mesmo circuito.

Ausente na competição, presente nas bancadas

Luís Alegria, piloto vencedor, no ano passado, do Campeonato de Portugal de Clássicos Circuitos 1300, viu este ano as corridas de outra perspectiva, sentado junto ao público numa das bancadas da Avenida Osnabruck. “É muito triste estar a assistir das bancadas, mas não havia hipótese de recuperar o carro para a corrida, uma vez que nos treinos em Braga o motor habitual cedeu. É uma pena ter acontecido em Vila Real, que é um Circuito que eu gosto muito e que só se faz uma vez por ano”, revelou. Relativamente ao salto para a internacionalização, o piloto afirmou que este traçado “reúne condições, mas há uma falta no Circuito que passa pela colocação de gruas nos pontos mais difíceis de forma a tirar automaticamente os carros da pista”. Para Luís Alegria, correr num circuito citadino é outro desafio. “Tem muito mais condução, é muito mais difícil, mais técnico e notam-se as grandes diferenças entre os pilotos”, garantiu.

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