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Todo-o-Terreno // Dureza, destreza e mecânica Por: Frederico Correia / Secção: Desporto / 12-09-2008 · 1 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Frederico Correia
A mais importante prova internacional regressou a Murça

Em 2008, o município murcense voltou a ser o palco português da mais aclamada prova de todo o terreno da Europa. A 6ª edição do Extreme Murça decorreu entre os passados dias 2 e 7 de Setembro e foi dominada pelo sucesso a “nível desportivo e organizativo”. Com a adesão dos pilotos a aumentar, a capacidade organizacional a acompanhar e as paisagens “agrestes e bonitas” a manterem-se, tudo indica que o evento estará de volta no próximo ano. Numa modalidade que ainda é pouco conhecida em Portugal, poucos são aqueles que preenchem os requisitos para participar na competição. São cinco dias de prova, com apenas um dia de descanso, cerca de 200 km percorridos por entre obstáculos e um carro, com piloto e co-piloto, responsáveis pela sua manutenção. Todas as peças suplentes necessárias à reparação do veículo têm de ser levadas no primeiro dia de prova. A estes requisitos junta-se a resistência física e psíquica dos concorrentes, o trabalho em equipa e a capacidade financeira, geralmente conseguida através de patrocínios. Para que o veículo ultrapasse todas as dificuldades do percurso o mais rapidamente possível, é preciso trabalhar como um conjunto “sólido”, desde a mecânica à condução. “A maioria dos concorrentes são pessoas que têm oficinas e se dedicam à preparação dos jeep’s, mas há outros que têm apenas uma grande paixão e gostam muito deste tipo de competição”, explicou Álvaro Aznar, responsável pelo RAINFOREST-Spain, o grupo organizador desta prova a nível europeu. No final de cada dia de competição, os pilotos ficam a saber até onde podem chegar com a sua máquina e se vieram ou não preparados para o desafio. Nesta edição, das três dezenas de lugares disponíveis na grelha de partida inicial, 26 foram preenchidos, mas no derradeiro dia de prova, apenas 11 alinharam numa das mais espectaculares especiais, sendo que apenas nove conseguiram terminá-la.

Murça é “ideal”

Com o acumular de edições realizadas neste município, os pilotos começam a ser “reincidentes”, a competição aumenta e o espectáculo beneficia. “A adesão foi muito boa, estes concorrentes vêm desde a Bulgária, Inglaterra, França, Espanha e Canárias. Fizeram muitos quilómetros para virem até Murça, mas são recompensados porque é tudo muito agradável”, sublinhou o espanhol. Nestas provas são vários os troços montados num palco relativamente pequeno para que os espectadores possam desfrutar de momentos distintos em simultâneo. Os participantes têm 20 minutos para percorrer cada zona, ultrapassando todos os obstáculos naturais, que estão delimitados por estacas (balizas), que não podem ser derrubadas sob pena de serem penalizados. “Durante um ano vamos até aos locais de prova, para saber onde há zonas bonitas para fazer um bom 4 por 4. Fazemos um levantamento dos locais e na retina fica o que há de bonito. Uma semana antes da prova, preparamos tudo. Antes das especiais só temos de verificar se está tudo bem e delimitar os percursos.” Para a marcação dos pontos de interesse para uma prova desta natureza, não é somente a beleza que interessa, pois a “dificuldade é o factor mais importante”. Conciliando estes dois factores, o esforço do homem e da máquina são levados ao extremo em obstáculos que “não são impossíveis, apenas quase impossíveis”. Ao contrário das edições anteriores e face à dureza da competição, a organização abriu este ano uma excepção. “No final do dia, os pilotos puderam ir tomar um banho e descansar num hotel. A maior parte das vezes, eles optam por ficar acampados, porque não compensa ir até ao hotel e voltar. Mas o verdadeiro espírito é dormir junto da máquina”, explicou Álvaro Aznar.

O delírio do público

Sabendo de antemão como é o comportamento do povo luso quando se trata de um desporto automóvel, ainda para mais praticamente desconhecido, advinha-se facilmente que o perigo reina a cada passagem das pesadas carroçarias. Num “terreno de jogo” sem bancadas e delimitado somente por fitas sinalizadoras, a organização nem sempre consegue controlar aqueles que correm atrás das máquinas, movidos pelo excesso de entusiasmo. “É um dos pequenos problemas que temos é o muito público, ainda que essa adesão muito nos agrade. É difícil controlar tanta gente, embora queiramos que todos vejam a prova. O público quer sempre estar o mais próximo possível dos carros para os ver, mas, como não estão tão habituados, não sabem que podem estar em perigo.” E os perigos não são tão poucos quanto isso. Os carros trabalham muito com os guinchos, têm rodas que, com os esforços a que são submetidas, não estão livres de se soltar, tal como outras peças, ou mesmo pedras que são projectadas. “Colocamos umas fitas a delimitar o percurso, mas há sempre quem queira estar mais à frente, mais próximo e, por isso, temos de estar atentos”, o que, compreensivelmente, nem sempre é fácil. Assim, os comissários de prova têm de analisar os movimentos dos carros em prova e ainda controlar a ânsia das centenas de curiosos.

Do outro lado do evento

Embora a organização seja da empresa espanhola, o maior interessado em que a prova se realize em paisagens murcenses é o próprio município. O vice-presidente da autarquia e responsável pelo pelouro do desporto, José Maria, não esconde a satisfação de poder contar com mais esta prova automóvel. “O balanço é extremamente positivo quer desportivamente, quer economicamente. No primeiro, porque conseguimos manter um espírito de prova que é a filosofia desta modalidade, no ultrapassar das dificuldades por parte dos participantes. Na segunda, porque se movimentaram muitas pessoas, que resulta num impacto económico muito importante para o município.” Em termos de dormidas, Murça experimentou mais uma semana de azáfama automóvel. Durante a semana de competição não sobrou uma cama em residenciais nem nas casas de turismo de habitação. Mas os benefícios foram além das fronteiras do município, pois os concelhos limítrofes de Alijó, Mirandela e até mesmo Vila Real acolheram a comitiva desta prova. “É conhecida a possibilidade de ser construído um hotel em Murça, mas não pode ser o município a construí-lo, mas sim incentivar e encontrar instrumentos catalisadores. Por isso, já temos feito e continuamos a incentivar particulares para que avancem com esses equipamentos necessários, para uma melhor resposta”, explicou o vice-presidente. Com o destaque assumido por esta prova no calendário do desporto automóvel nacional, Murça não quer abdicar da sua realização. Se da parte da organização “a prova acontecesse por mais 100 anos”, da parte da câmara a luz é verde. “Querendo a organização voltar a Portugal e passar pelo nosso município, a autarquia estará disposta a receber a prova tal como o público de Murça”, concluiu o vice-presidente.

Testemunhos

Valete e Hugo Sá (Farmácia Manso Preto)

“É uma prova muito competitiva, complicada, dura, mas muito bonita. Éramos mais de vinte, mas agora estamos dez, o que mostra a dureza dos carros. Os carros têm melhorado e, por isso, temos mais competitividade. Este ano pudemos optar entre dormir aqui ou noutro local, a minha equipa acabou por acampar em metade das noites”.

Andoni e Tomas L. (EKOLAN)

“Tem sido um pouco difícil, no entanto nada que não se aguente. Nós gostamos muito disto e para este desporto isso é essencial. Só quem gosta disto é que passa tantos dias nestas condições, a correr e ultrapassar todas estas dificuldades. Fazemos várias provas ao longo do ano e esta é mais uma, dormimos todas as noites acampados junto ao carro, porque gostamos deste espírito”.

José Manuel e Paulo Azevedo (Jipelândia)

“Estes dias são muito difíceis. Depois deste desgaste já só pensamos em chegar ao fim desta aventura, que exige muito dos participantes. Temos de pensar em tudo aquilo que é preciso em termos de peças, porque nunca podemos receber nada ao longo dos dias de provas. Comecei com dois capotanços no primeiro dia, mas as coisas compuseram-se. Este desporto é bom pela vertente do espírito de convívio que se cria, que acaba por ser o mais aliciante”.

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1 Comentário Feed

Leonor Ramos · escreveu em 12-09-2008 às 11:20:58
Gostei especialmente de ter a possibilidade de ver aqui as excelentes fotografias de alguns momentos desta prova. Sem desvalorizar o texto, que também está muito bom, é caso para dizer que "uma imagem vale mais do que mil palavras".
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