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Douro Vinhateiro // As curvas das aduelas Por: Daniel Faiões / Secção: O Olhar / 31-10-2008 · 4 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Daniel Faiões Carlos Vieira desenvolve a arte no terraço da sua casa, na Régua
O mestre sorri e vai espreitando a peça. A pipa vai balançando na corda enquanto aguarda uma última demão de verniz. São pequenos retoques, indispensáveis, que a farão perfeita no final. Da sua mão nascem réplicas de tonéis, cubas e pipas.

A vontade e o apelo das madeiras, matéria-prima de uma vida, impeliram, desde logo, Carlos Vieira a dedicar-se a este labor. Nascido em Poiares, o artesão viu na criação de peças em pequena escala uma forma de se sentir ocupado. Hoje, com 73 anos, desenvolve a sua arte no terraço da sua casa, situada no Peso da Régua. O apego à madeira começou cedo, já que com 17 anos trabalhou como carpinteiro, fazendo vasilhames. Posteriormente, ingressou “nas oficinas” do colégio, onde aprendeu a ser marceneiro. “Eu e os outros aprendizes íamos fazendo exercícios para nos aperfeiçoarmos, nem que andássemos todo o dia a fazer a mesma coisa, até ficarmos apurados”. Na tropa, trabalhou como carpinteiro e, até aos 34 anos, quis o destino que estivesse ao serviço dos transportes colectivos do Porto. “Foram 13 anos a trabalhar em carroçarias de autocarros”, lembra. Atingida a idade da reforma, Carlos Vieira transportava consigo a certeza de que não podia parar. Perfeitamente consciente da dificuldade que todo processo implica, confessou que, “se todos os pipos dessem o trabalho que este deu, mais valia desistir, saiu mal, foi um lapso do verniz”. E são a paciência e a perseverança, duas características que marcam a sua conduta, quando dá início a mais uma peça.

A primeira cuba, o maior dos tormentos

Foi já com 60 anos que Carlos Vieira se iniciou no fabrico de miniaturas. Como tal não teve mestre e tudo o que fez e faz foi aprendido por observação. “Quando vejo qualquer coisa, estou sempre a tirar detalho. Depois de ver, tento fazer. Se saiu bem, melhor. Se saiu mal, tento segunda vez.” Este mestre do pormenor vive disposto a ensinar a arte, mas “não aparece ninguém para aprender”. “Não há muito interesse nisto. Como aos mais novos agora pagam para não trabalhar, eles não querem saber destas artes. Além disso, isto é muito chato, requer paciência e hoje já ninguém quer ser ensinado”, explica. Carlos Vieira procurou verter o requinte exigido nas oficinas do colégio na sua primeira obra, mas, ao que parece, a perfeição vai sendo também alimentada pela prática. “A primeira cuba que fiz, nem gostava dela, nem a dava, nem a vendia. Mas como foi a primeira, deixei-a ficar. Fiz a segunda, comecei a gostar mais do meu trabalho e cheguei à conclusão que à primeira tinha que ser feita alguma coisa.” Como o resultado não estava de acordo com o idealizado, o artesão pensou para si: “tenho que escaqueirar isto”. “Desmontei-a toda, montei-a novamente e pensei depois: agora sim, fizeste um bom trabalho e dá gosto olhar para ela”, confidencia. É este tempo gasto, na senda da mestria, que legitima o valor monetário de cada objecto, 150 euros uma pipa ou cuba, 40 um relógio e 250 um barco rabelo. “Por vezes, perguntam-me porque levo mais caro. Quando o fazem, apenas lhes digo que eles não imaginam o tempo que demoro a fazer as peças. Perco esse tempo porque tenho que gostar da peça no final.” Uma destas jóias, feita em madeira de castanho, é agora, para orgulho de Carlos Vieira, pertença de um governante. “Há uns dias esteve cá um senhor ministro e vieram-me aqui comprar um pipo. Ele ficou encantado, disse que foi a melhor prenda que lhe deram enquanto ministro, porque isto não é um pipo, é um tonel em miniatura.”

O fabrico das barricas

Uma banca de trabalho imensa ocupa o terraço de Carlos Vieira. Dezenas de utensílios dão um colorido especial ao local. A oficina, ao ar livre, tem uma paisagem que convida ao deleite. Ao fundo, avista-se o imponente rio Douro, serpenteado, que se faz vizinho do atelier. Carlos Vieira mostra as aduelas. Pedaços de madeira, criteriosamente escolhidos e medidos, são a principal dor de cabeça do artesão, porque “ao vergar partem muito”. Esta madeira muito “requeimada”, é muito velha e “para a vergar não é tarefa fácil”. “Para fazer esta pipa, partiram-se dez aduelas. Tendo em conta que um pipo se faz com 18 ou 20 aduelas, já dá para perceber o prejuízo”, frisa.
Estas aduelas provêm de pipos de 100 litros, que foram abatidos, por estarem em fim de vida. Das pipas desmanteladas surge então a matéria-prima de Carlos Vieira. Durante anos a fio, estas aduelas foram “vinhadas” pelo contacto ébrio que mantiveram com o Vinho do Porto. Servem agora o mesmo propósito, mas, desta feita, em pequenos depósitos, construídos à escala, perfeitas imitações dos gigantes reservatórios. Na prensa, está já preparada a garlopa, usada para acertar as aduelas, antes destas serem vergadas. O jeito redondo dos pipos e tonéis surge exactamente porque as aduelas, tábuas que fazem o contorno da pipa, são sujeitas a enormes tensões. Todas são rigorosamente acertadas pela precisão do escairo, uma peça de madeira em forma de 7. Esta justeza fará com que, mais tarde, a união entre as aduelas seja exemplar, tornando-se a peça num todo uniforme. Munido de várias ferramentas, Carlos Vieira explica como se fazem a entrada e o fundo do pipo. Mais dois redondos pedaços de madeira, uns riscos acertados pela exactidão do compasso e assim se marca a roda dos tampos. Essas duas peças circulares vão encaixar irrepreensivelmente nas aduelas, naquela que acaba por ser uma união espontânea entre as várias peças do puzzle. Depois de congregada toda a madeira, é também usado ferro, em forma de arcos. Esses arcos vão baixando ao longo do corpo da cuba, empurrados pelo martelo, “para forçar as aduelas a unirem ainda mais”. Carlos Vieira convida a uma espreitadela enquanto diz: “como vê, a junta está perfeita, e depois do arco apertar, as aduelas são obrigadas a colar”. As bases dos tonéis também são replicadas, tentando imitar-se os enormes e pesados blocos de cantaria. As pequenas bases de sustentação são feitas com uma pasta de madeira e, no final, polvilhadas com areia fina, para dar a sensação de que se trata, realmente, desta resistente pedra. Uma portinhola na frente do tonel dá as boas vindas à dedicação do mestre. Esse convite é feito e rapidamente aceite, após se percorrerem atentamente os caminhos do detalhe. De um dos lados do tonel há ainda uma torneira de nível, exactamente como nos verdadeiros, indicativa da altura a que o vinho se encontra no seu interior. Este néctar pode ser retirado, para verificação, através da provadeira, uma torneira de teste com a qual se pode comprovar se no interior da cuba o processo de envelhecimento se desenrola na perfeição. Carlos Vieira explica que a maior parte dos pipos que se vêem à venda são, ao contrário dos seus, lavados com parafina quente. “Quando a parafina derrete por dentro do pipo, vidra, e, nesse momento, fica tudo vedado.” O artesão esclarece que a diferença está naquilo que acontece ao vinho. “Se meter vinho numa pipa destas [uma das construídas pelo artesão], tem que lhe deitar vinho todos os anos, porque vai evaporando. Um pipo tem sempre perdas de cinco por cento, no mínimo. Se fizer 100 pipas de Vinho do Porto, para o ano já só lá tem 95. Numa dessas comprada por aí, isso não acontece. O vinho não envelhece nem valoriza”. Nas pipas de Carlos Vieira, esse processo de envelhecimento ocorre como nas verdadeiras. Prova disso é que o artesão tem uma pipa com vinho “há mais de trinta anos, e o vinho, coitadinho, já está a melar”. Poderá parecer uma desvantagem esta perda na quantidade, mas o artesão duriense garante que muito se ganha na qualidade. Vários formões, grampo de molas, gibradeira, graminho, plaina, enchó, guilherme, serrote, goibete, alicate de pressão e a sutra são alguns dos confidentes e parceiros de arte de Carlos Vieira. Com eles elabora afincadamente cópias fiéis dos desmedidos tonéis, eternos habitantes das caves do Douro. Nos verdadeiros e nas miniaturas descansa assim aquele que é o mais precioso e ilustre produto que o Douro vê nascer nas suas encostas, o seu apreciado vinho.

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4 Comentários Feed

Bruno Abreu · escreveu em 31-10-2008 às 15:38:18
Ainda bem que ainda há tradições que se mantêm, como a tanoaria. Uma boa visão de uma profissão em vias de extinção.

Pelos vistos as gentes de Trás-os-Montes não querem deixar morrer o passado rico e a tradição. Ainda bem.
Ana Filipa Ferreir Vieira · escreveu em 08-11-2008 às 17:11:15
As fotos ficaram a matar. Continua assim que vais bem. Espero que ganhes alunos para ensinar.
Ermelinda Marques · escreveu em 21-01-2010 às 16:24:32
Depois de tantas pesquisas sobre a net, sem sucesso, aqui estou vendo aquilo que procurava.
É que gostaria de comprar para mim e amigos. Qual é a possibilidade. Muito obrigada e que Deus lhe dê muita boa saude para poder continuar esse belo trabalho.
JOSÉ CARLOS DE SOUZA SÉRIO · escreveu em 26-06-2011 às 20:03:29
À semelhança deste artigo sobre as aptidões e arte de Carlos Vieira, outros deviam ser feitos e divul gados sobre os trabalhos doutros artífices, também exímios, que, com grande esforço, aviventam o nosso artesanato.
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