Cultura // Crónica do jornalista Rogério Rodrigues

Amadeu, um santo - Crónica de Rogério Rodrigues

RR em Qui, 05/03/2015 - 12:21

O seminário tornou-o um ateu; a vida, um santo. E morreu, no passado domingo, após uma luta cheia de esperança contra o cancro do cérebro, ele que era um dos melhores cérebros e almas que conheci. O cérebro perdeu-se, a alma é que não.
As cinzas vão renascer nas terras de Sendim (Miranda do Douro) e nas águas do Douro como se antecipassem a Primavera.
Os deuses deram-lhe génio de mais para tão curta vida.
No Verão, já o pão recolhido nas eiras (memórias da sua infância) e pintado já o bago da videira, ia fazer 65 anos.
Amadeu Ferreira – e é de um santo que estamos a falar – nasceu em Sendim, de pais analfabetos mas sábios; foi seminarista até ao fim do curso (Humanidades, Filosofia e Teologia); preferiu a expulsão a ser uma esperança do clero com viagem prometida para estudos superiores em Roma.
Mergulhado no mundo profano, sobreviveu a dar explicações em Bragança, em quarto partilhado com Armando Vara. Foi dirigente do movimento de extrema-esquerda (PCP(R)/UDP), deputado durante alguns dias, desiludido com a política, irradiado do partido; foi professor de Música numa escola da outra banda, ainda trabalhou na construção civil, aluno à noite da Faculdade de Direito, de que foi o melhor aluno do curso, quer do diurno quer do nocturno.
Conhecemo-nos há 40 anos. Durante tempos, seguindo caminhos não cruzados, não nos encontrámos. Um dia, por casualidade, parámos na mesma estação de serviço. E começámos a conversar como se o último encontro tivesse sido ontem. Eu acabara de receber de França os três volumes da “Histoire intérieure do Parti Communiste”, de Philippe Robrieux, um antigo trotskista. Emprestei-lhe os volumes e durante tempos discutimos, ou melhor, debatemos este clássico, onde já aparece a vertente do PCP português. Nada do que é humano era alheio a Amadeu Ferreira.
Terminado o curso, com uma dissertação sobre os valores mobiliários, cuja bibliografia era escassa (o último trabalho com alguma profundidade já teria mais de 50 anos), acabou por ser convidado para a  CMVM (Comissão de Mercados de Valores Mobiliários), onde chegou a vice-presidente e docente da Faculdade de Direito.
Nunca abdicou da boina espanhola nem do bigode. Todos os meses andava 500 quilómetros para visitar os pais e pelas manhãs podíamos vê-lo na horta (como eu vi, num fim-de-semana que passámos em sua casa) a regar o cebolo ou a orgulhar-se das couves tronchudas onde as gotas de orvalho mais pareciam lágrimas de alegria.
Lutador até ao fim, com outros mirandeses, homens de planalto, celtas e judeus, o Amadeu, cuja família tem por alcunha os Bandarras, conseguiu que o mirandês se transformasse, por aprovação na Assembleia da República, na segunda língua oficial do país. E começou a traduzir com o pseudónimo, ou heterónimo, como queiram, de Francisco Niebro (Niebro em mirandês significa zimbro) a “Mensagem” de Pessoa, “Os Lusíadas”, o Astérix, os Quatro Evangelhos da vulgata de S. Jerónimo, que os traduzira do hebraico para o latim, e não da versão septuaginta, em grego.
Traduziu os clássicos, que ele tanto amava: Virgílio, Horácio e Catulo. Hesíodo, o poeta de “Os Trabalhos e os Dias”, será a sua fonte para o livro de poemas “Ars Vivendi, Ars Moriendi”, que eu, a seu pedido, traduzi em mirandês, utilizando um dicionário da sua autoria e do filho, Pedro Ferreira, que ainda não está publicado, com a ajuda preciosa de António Cangueiro, que, até ao fim dos dias do Amadeu, foi mais que o seu secretário. Amadeu,  lúcido, mas já sem ver, pedia a António que lhe lesse e ditava-lhe os últimos textos que pensou antes de morrer.
Toda ou quase toda a sua obra e o seu currículo podem ser consultados nas 295 páginas que Hirondino Fernandes lhe dedica na Bibliografia do Distrito de Bragança (volume ii).
Na ficção, baseada em longas investigações na Torre do Tombo, deixou o “Tempo de Fogo”, um libelo acusatório das perseguições da inquisição em terras de Miranda.
Amadeu até na morte foi grande e discreto. Deixou-nos como último acto da sabedoria “A Velhice”, a lembrar o “De Senectute” de Cícero.
O jovem que conheci há 40 anos era o mesmo que conheci até ao passado domingo.
Se teve pecados, não lhos conheço. A tê--los, foram já santificados.
Fazes-me falta, Amadeu.