Atual // Bragança Entrevista ao presidente da União das Freguesias de Sé, Santa Maria e Meixedo

“Serei candidato”

António G. Rodrigues em Qui, 06/10/2016 - 15:26

Primeira grande entrevista de José Vaz Pires, presidente da maior freguesia do distrito de Bragança, com mais de 20 mil eleitores, nascida com a agregação de três. Agora assume publicamente o desejo de se recandidatar, doa a quem doer.
Mensageiro de Bragança: Estamos a entrar na reta final do mandato. Foi a primeira vez que houve aqui junção de freguesias. Qual foi o maior desafio, gerir a cidade unificada ou a junção de uma freguesia rural (Meixedo)?
José Pires:
Acabou de passar o terceiro aniversário das eleições autárquicas. Quero deixar, por isso, um agradecimento a todas as pessoas que estiveram connosco. O mais difícil foi a junção das duas realidades, o tratar de forma igual o que é diferente.
Se na cidade era mais simples, pois temos Sé e Santa Maria e eu conhecia bem a realidade desta freguesia, a agregação (que faz sentido) permite fazer um trabalho bastante melhor. Ao agregar Meixedo temos trabalhos específicos que não são muito compatíveis com a realidade da cidade. Por exemplo, os atestados. Nas juntas do meio rural assina só o presidente, se a Junta não estiver aberta faz-se ali mesmo no café. Há uma outra proximidade. Nós tivemos de criar regras para tratar a população de igual forma. Se temos direitos, também temos deveres. Há alguma dificuldade para as pessoas perceberem o que são direitos e os deveres e nós em trabalharmos esses direitos e esses deveres para as pessoas não pensarem que abandonámos o que estava para trás. Posso dizer que já fui mais vezes a Meixedo do que a alguns bairros da cidade. Há a preocupação de estar próximo. Se as pessoas viam lá o presidente todos os dias, aqui deixaram de o ver tantas vezes. É necessário estar numa das sedes no atendimento e não dá para estar todo o dia em Meixedo, à mão de semear. Mas houve o cuidado de dispensar o domingo e estar presente, para as pessoas não se sentirem abandonadas.
O grande problema foi ter as duas realidades diferentes e tentar tratar todos de forma igual. E que todos se sentissem iguais.

MB.: Herdou a junta com a missão ingrata de substituir um presidente carismático como era Paulo Xavier. Que balanço faz destes três anos?
JP.:
Tanto no caso da Sé, cujo presidente era o que estava há mais tempo e era uma pessoa carismática, como em Santa Maria, onde estava Jorge Novo, uma pessoa diferente, como em Meixedo, com Luís Gonçalves, não se pode falar em substituição pois não vim substituir ninguém. Sou o primeiro. Antes da agregação, não havia esta freguesia, logo, não substituí ninguém. Também não é minha pretensão agradar a todos. Sei disso perfeitamente. Temos todos estilos diferentes. O que eu quero é que as pessoas gostem do trabalho que é feito. O gostarem ou não do presidente é uma questão secundária.

MB.: Conseguiu desenvolver o trabalho que pretendia?
JP.:
Fizemos um programa muito ambicioso e não o vamos conseguir cumprir na totalidade, até porque tivemos algumas condicionantes. A começar pela agregação em si passando pela nova legislação, pelo atraso nos quadros comunitários, dos quais dependiam muitos dos nossos projetos. Como não chegaram a abrir, não pudemos fazer as candidaturas. Mas há muitas coisas que fizemos que estavam no programa, outras que estão lá e não fizemos e muitas outras que concretizámos sem lá estarem.
É um balanço positivo – seria muito positivo se o programa estivesse cumprido a mais de 80 por cento – mas falta cumprir alguma parte. Ainda nos falta um ano mas vemos que as pessoas estão agradadas com o nosso trabalho. Não é fácil desenvolvê-lo. Custa às pessoas habituarem-se ao novo presidente. Muita gente continua a ver-nos como a Junta da Sé, talvez por ser a maior, e veem o Paulo Xavier como o antigo presidente e ainda sentem dificuldade em identificarem o José Pires como novo presidente, mas gostam do que temos feito. Nalgumas áreas é um trabalho incompleto.

MB.: O que destaca de entre o que foi feito?
JP.:
Não destaco uma área em específico. Até por imposição própria, modernizámos as juntas a nível informático. Há um atendimento mais rápido, mais fácil para beneficiar os cidadãos. A nossa perspetiva é ter as pessoas em primeiro lugar.
Modernizámos, uniformizámos formas de trabalhar em todas as freguesias.
Também no acolhimento dos cidadãos, fizemos um investimento na modernização do comboio. Verificou-se que foi uma aposta ganha. Houve mais turistas a conhecerem a cidade. Estamos, com isso, a apostar na economia e no turismo. Investimos cerca de dez mil euros. As pessoas têm-nos dito que está mais atrativo. Ainda há pouco tempo tivemos um grupo do Porto que, depois, nos escreveu a agradecer a forma como foram recebidos. Deram a volta à cidade.
Também estamos a preparar uma candidatura para poder fazer um investimento na área rural. Queremos construir um parque para pessoas portadoras de deficiência. Não tem sido fácil mas as dificuldades fazem-nos trabalhar com mais afinco.
No desporto, promovemos uma equipa para participar no torneio inter-freguesias, para o qual reunimos bastantes pessoas e fomos campeões nas duas edições. Acima de tudo, levámos pessoas aos campos. Notou-se o orgulho nas pessoas a vestirem a camisola. É isso que queremos, que sintam a freguesia.
Criámos o jantar do dia do homem, o desfile solidário. A nossa preocupação é a mobilização. Entendemos que quando as pessoas têm dificuldades económicas, devem ser as instituições a promoverem atividades, lançar a semente para que depois possam continuar. Não queremos ser uma empresa de organização de eventos mas queremos que as pessoas se sintam bem, convivam e se crie o hábito de estar bem na cidade.
Em termos de obras essa tem sido, também, a nossa preocupação. Temos feito passeios, tentamos ter os espaços verdes cuidados, para que as pessoas saiam de casa e em vez de pôr o pé numa poça ponham o pé num passeio e fiquem felizes por ir trabalhar.

MB.: Na educação têm apoiado as crianças do primeiro ciclo com material escolar. Este ano também?
JP.:
Não. Por imposição legislativa, e cumprimo-lo com todo o gosto, fazemos o fornecimento de material de limpeza às escolas. Para infelicidade nossa, este ano até com uma verba inferior. Temos cerca de 12 mil euros por ano para as escolas pagarem alguns consumíveis. São 110 euros por sala em cada ano. É um valor acima da referência. Mas este ano vimos escolas a fechar e, por isso, o valor é inferior.
Paralelamente a isso, temos oferecido um kit escolar com material didático para ajudar as crianças e as famílias. Não fazemos a distinção entre escolas públicas ou privadas. Este ano vamos alargar ao pré-escolar, também no público e no privado. É que muitas crianças estão no privado porque não podem estar no público. Quando a minha filha era mais nova, não havia alargamento de horário no público. Como saíamos de casa cedo, teve de ir para o privado. Eu gostava do público mas não tinha essa possibilidade e entendo que todos as famílias devem ser apoiadas. Por isso, não distinguimos nem discriminamos.  
No ano passado distribuímos material como lápis, canetas, lápis de cor, etc. Este ano, para ser diferente, vamos oferecer um fato de treino a todos os 1800 alunos do pré-escolar e do primeiro ciclo.

MB.: Falou das obras e dos passeios. Esse tipo de ação não cabe à Câmara Municipal? Sente que tem uma missão ingrata por haver, na cidade, essa espécie de sobreposição de competências?
JP.:
Há e não há essa sobreposição. A lei 75 atribuiu às juntas de freguesia a competência de cuidar dos passeios. No entanto, para a área que temos, o orçamento da junta não chega para as encomendas.

MB.: De quanto é o orçamento anual?
JP.:
É de cerca de 400 mil euros, que tem de incluir as receitas do fundo de financiamento das freguesias e o valor que o município nos atribui para obras. Mas desses 400 mil euros, só pouco mais de cem mil são para obras, pois o restante é para as instalações, salários dos funcionários, enfim, para o normal funcionamento da Junta. As pessoas já começam a ver que há um trabalho complementar com a Câmara e recorrem e nós para pequenas reparações, compor passeios, limpar espaços. A Junta tem mostrado que é capaz de os fazer, em complementaridade. A competência é nossa contudo, essa competência não veio acompanhada do correspondente envelope financeiro. Por isso, muitas vezes temos de juntar orçamentos de vários anos. Também temos a preocupação de fazer obras mais duradouras e as pessoas entendem isso. Investimos um pouco mais mas dura mais.

MB.: Que projetos ainda não conseguiu concretizar?
JP.:
Em termos de obras, há algumas que gostaríamos de fazer. Também nos custa ver degradado um espaço que limpámos agora, que é a escadaria do S. Bartolomeu. Não temos capacidade financeira para ali intervir. Outro projeto que há muitos anos nos é querido é o do açude por baixo da ponte nova do Sabor. Queríamos criar ali um espelho de água. Também um centro de dia na área rural. Também há projetos que não são fáceis de implementar, mas não desistimos deles. Vamos aproveitar a possibilidade de candidaturas a fundos comunitários, pois só com o nosso parco orçamento não dá.

MB.: Um ano é curto para executar esses projetos. São precisos mais quatro?
JP.:
Sim. Estamos em conversações com quem nos pode ajudar a elaborar candidaturas a projetos. Desde a candidatura à aprovação são sete meses e nós estamos a um ano das próximas eleições. Este foi um mandato em que tivemos de arrumar a casa. Temos uma perspetiva próxima da realidade mas há sempre pormenores que desconhecemos. Agora, eu e a minha equipa conhecemos a realidade da freguesia, os bairros, as pessoas, as necessidades. E verificamos que, depois da casa arrumada e tudo colocado sobre carris, falta-nos completar os compromissos que assumimos. Um mandato não é suficiente.

MB.: Então é candidato a um segundo mandato?
JP.:
Serei candidato a um segundo mandato. É esse o desejo das pessoas que estão connosco nos manifestam, também é o meu desejo e vejo isso pelo trabalho que fizemos e pelo que ainda temos de fazer. Agradeço às pessoas que confiaram em nós mas não estou agarrado ao poder. Sempre disse que era um futuro ex-presidente. O meu tempo há de passar. Custa-me é não ver completados alguns projetos. As pessoas também nos têm transmitido isso. Por isso, seremos candidatos a um próximo mandato autárquico.

MB.: Custa-lhe, nesta altura, ainda não ter o apoio declarado do PSD, partido pelo qual concorreu nas eleições anteriores?
JP.:
Penso que o apoio do PSD irá aparecer. Não está declarado mas penso que o será. Não faria sentido ser candidato por outro partido. Há 12 anos, em Santa Maria, fomos apoiados pelo PSD. Este mandato é pelo PSD. Não me vejo candidato por outro partido.

MB.: E se esse apoio não aparecer?
JP.:
Eu desejo e serei candidato.

MB.: Portanto, mesmo sem o apoio do PSD será candidato?
JP.:
Não queria equacionar esse termo… penso que o PSD manifestará esse apoio. Penso que temos feito um bom trabalho e queremos que continue. Não havendo esse apoio – e neste momento não equaciono essa possibilidade, fá-lo-emos na altura própria – teremos de considerar todas as perspetivas que se afigurem.

MB.: Pode ser por outro partido ou numa candidatura independente, como há três anos houve duas?
JP.:
Não vejo que possa ser por outro partido. Não estou agarrado ao poder e não me quero perpetuar. Tenho um partido pelo qual dei a cara há 16 anos. Não me vejo noutro partido mas, como diz o ditado, não digo desta água não beberei. Quero o apoio do PSD mas não excluo nenhuma das possibilidades porque o futuro a Deus pertence e cá estaremos na altura certa para tomar a decisão que seja benéfica. Mas não estamos agarrados ao lugar, temos um projeto e queremos concluí-lo. É isso que me faz sentir que devo continuar.
Não excluo as possibilidades de ir como independente ou por outro partido, isso não excluo. Mas a perspetiva é ser o candidato do PSD.

MB.: Sente-se magoado por nesta altura ainda não ter esse apoio declarado, ou injustiçado?

 
(Entrevista completa disponível para assinantes ou na edição impressa)