Igreja // Diocese

"Somos pessoas, não somos números", alerta D. José Cordeiro

António G. Rodrigues em Qua, 14/01/2015 - 18:03

No início de um novo ano, o bispo da diocese de Bragança-Miranda, D. José Cordeiro, repassou os principais temas em revista e abriu as portas de 2015. Falou ainda sobre o sínodo extraordinário da família.
Mensageiro de Bragança: Este ano houve algumas alterações à configuração da diocese, com algumas alterações às Unidades Pastorais. Que balanço faz?
D. José Cordeiro:
A Igreja no seu todo, e também aqui na nossa diocese, está sempre em reforma e tem de estar sempre a reorganizar-se para ser mais fiel a Jesus Cristo e ao seu Evangelho. A atual configuração em 25 Unidades Pastorais ainda não é definitiva. Propusemo-nos, até 2017, neste projeto pastoral que a diocese está a viver, ‘Juntos com Cristo nos Novos Caminhos da Missão’, adaptar e adequar as nossas instituições e estruturas aos novos desafios da Missão, porque não podemos continuar a trabalhar, a viver, a anunciar como se fazia há dez anos, há 20 ou há 30. Mas, mantendo a substância do Evangelho e da Fé, adaptar. As condições mudaram. A mudança é este convite permanente, que leva também às estruturas. No nosso caso, até mais do que o despovoamento, a diminuição de pessoas, a escassez de vocações sacerdotais, é sobretudo o grande peso das estruturas. E, aqui, era muito sentido. Tanto nas questões logísticas como as próprias estruturas pastorais. Reorganizámos a passámos de 12 a quatro arciprestados e é aí que estamos a fazer convergir e reorientar toda a ação pastoral, especializada e no seu todo, dos sacerdotes, dos diáconos, das pessoas consagradas, dos leigos e leigas, de todas as pessoas que vão aderindo às propostas da formação permanente para continuarem a ser fiéis a Jesus Cristo, mas hoje e não voltados apenas para o passado. É importante, estamos gratos por ele, mas toca-nos, hoje, construir o futuro tendo em conta o passado mas, sobretudo, estarmos abertos aos desafios do Espírito de Deus no hoje da História. Atentos às necessidades dos nossos irmãos e a sermos cada vez mais responsáveis diante de Deus e das outras pessoas e no mundo atual, procurando que o nosso testemunho, a nossa oração, corresponda cada vez mais ao Evangelho de Jesus Cristo. Toda a nossa ação parte da oração. Se não, reduz-se à filantropia, à solidariedade social ou, até, a uma economia social. Da nossa parte é muito mais do que isso. Tem de ter em conta esses parâmetros, para que seja devidamente organizada, de forma inteligente, mas ela brota da caridade do Coração de Deus, da Luz da Luz que no Natal sublinhamos mas que, sobretudo na Páscoa, é levada ao seu expoente máximo. É na Páscoa que nascemos e porque ele está vivo que procuramos mudar para ser mais fiéis, por amor, por docilidade ao Espírito Santo no aqui e agora da História.
 
MB.: Recentemente alterou-se a legislação que rege as IPSS. Parece-lhe que essa alteração pode afetar as instituições da diocese?
DJC.:
Esta nova disposição do decreto-lei, que abrange todas as IPSS e no qual as nossas também se incluem, como as Misericórdias, as Fundações, os Centros Sociais Paroquiais, a Caritas diocesana, permite uma outra organização e reorganização das mesmas, até atendendo aos recursos humanos. Para nós, no seu todo, é muito positivo. Aquilo que pode suscitar alguma reflexão e maior vigilância da nossa parte é que, pelo facto de todas serem incluídas na lei de bases da economia social, podem, alguns, menos atentos, distrair-se e olhar para as IPSS católicas como apenas economia social, centros de emprego ou mera solidariedade humana e social, que por si só já é positivo mas que, para nós, não basta porque a nossa matriz é a da caridade fraterna. Da Misericórdia vivida nas 14 obras de Misericórdia corporais e espirituais e tem que dar esse sentir daquele coração que vê, que reza, que, à imagem de Cristo pela oração e para a ajuda, pela cura, mostrou o Reino de Deus em nós; e a ação social caritativa da Igreja não está desligada da pregação, da evangelização, da liturgia… ela é mesmo evangelização. E por isso é que é preciso muita atenção. Quando transpomos os critérios mundanos para aquilo que é evangelho puro, o que é caridade exercida na fidelidade a Jesus Cristo, podemos correr muitos riscos, entre os quais os do poder, da riqueza, da fama, e o poder corrói sempre. Às vezes, a ambição do poder corrói mais. E, nas nossas instituições, não estamos imunes nem livres [de isso acontecer]. Elas são feitas de pessoas e quando pessoalizamos até o governo dessas instituições, esquecendo que é um serviço, que aquilo não é nosso, não somos proprietários mas administradores do bem dos pobres porque aquilo pertence aos pobres, aos que mais precisam. Se não, as coisas ficam completamente desfocadas e contratestemunho daquilo que é a ação evangelizadora da Igreja.
 

MB.: Um dos grandes projetos que teve em mãos foi o da catedral, que já está paga. E agora?
DJC.:
No governo, na parte pastoral da diocese, estamos ainda em tempo de arrumar bem a casa. Pôr em ordem todas as dimensões económicas e financeiras, porque elas têm uma finalidade pastoral. A economia, organização da casa, também tem um fim pastoral e não pode ter outro. É ao serviço da evangelização, dos que mais precisam, mas o sentido de caridade e da Misericórdia e da ação social caritativa com os que mais precisam nascem da Fé, não de um sentimento apenas filantrópico, social, mas da oração, da caridade de Deus. Neste sentido, estamos também a reavaliar alguns bens materiais que temos, nomeadamente a casa do clero e o seminário de Vinhais e à espera da apresentação de algumas propostas, concretamente para estas casas. Já estão ligadas ao instituto diocesano do Clero e, nessa mesma linha, temos o sonho de concretizar a chamada Casa Pastoral, que é a requalificação do edifício central do seminário de S. José, para lugar da formação permanente da diocese em várias dimensões, com o IDEP (e para isso ficará uma biblioteca, um auditório, salas); o primeiro andar para uma casa sacerdotal, para os padres jubilados e para outros ligados ao serviço diocesano; e, depois, no segundo e terceiro andares, para casa de retiro, com capacidade para 40 quartos, para acolher vários grupos e proporcionar, aqui na sede da diocese, um lugar de formação permanente e espiritual, à semelhança do que já acontece no santuário dos cerejais. Isto para que os agentes de pastoral da diocese e de fora da diocese e outras pessoas possam dispor de um espaço condigno para isso porque a casa do clero deixou de ter essa dignidade e essa possibilidade, bem como no seminário de Vinhais, que não temos capacidade de resposta para estes edifícios. Estamos a tentar o melhor, que salvaguarde o património, os interesses pastorais da diocese.
 
MB.: A solução para a casa do clero e para o seminário de Vinhais passa por uma alienação?
DJC.:
A casa do clero sim mas o seminário de Vinhais ainda não é claro. Tem uma carga sentimental muito forte, no clero, mas foi uma casa que passou por uma história muito complicada. Só é da diocese desde 1928 e antes era de privados. Gostaríamos de manter a propriedade mas estabelecer uma relação de comodato ou de aluguer com as finalidades inerentes à doutrina social da igreja. Estamos a estudar e, em breve, propor essa finalidade. Eu mesmo me sinto muito ligado àquela casa, pois estudei lá três anos. Queremos salvaguardar a memória, o património e abrir horizontes de futuro. A igreja será doada à paróquia de Vinhais, para lugar de oração, como, de resto, já está a ser.
 
“Novo tempo na Igreja”

MB.: Que balanço faz do sínodo dedicado à família, numa altura em que já há um novo questionário?
DJC.:
É um tempo novo na Igreja. Este sínodo e a forma como foi preparado, realizado e como está a ser continuado faz ecoar os caminhos do Concílio Vaticano II e põe a Igreja numa outra atitude e coloca-a mesmo em saída, como o Papa Francisco tanto tem insistido, e de portas abertas. O Papa pediu aos padres sinodais que falassem sem constrangimentos, de coração aberto, querendo todos o melhor para a Igreja, para a família, para a vida humana, à luz da Santidade da Palavra de Deus e do grande depósito da Fé.
O questionário já existe e é, também, uma novidade, porque a relação final do sínodo é que passa a ser “lineamenta” para o próximo sínodo, em outubro, e é um questionário ainda mais difícil e complexo do que o anterior porque já é o resultado de todas as reflexões das dioceses de todo o mundo e, também, do próprio decorrer deste sínodo extraordinário dos bispos. Tenho muita esperança, se bem que se auguram algumas dificuldades e resistências, como é proprio quando se abre e se escancara de par em par e se opta por esta atitude da sinodalidade. Não apenas dentro daqueles dias estabelecidos para o sínodo dos bispos mas o Papa quer que chegue a todas as bases da Igreja e é o caminhar juntos. Juntos refletirmos e não descarregarmos as decisões daqueles que têm o poder de decidir mas que sejam refletidas, amadurecidas, experienciadas, discutidas pelo maior número de pessoas que respondem, de uma forma inteligente, séria, disponível e cristã, aos desafios dos dias de hoje mas sempre à luz do Evangelho.

MB.: Parece-lhe que pode criar alguma divisão no seio da Igreja ou, por outro lado, é uma oportunidade de abraçar muitos católicos que não se revêem numa posição mais tradicionalista?
DJC.:
Sim, prefiro ver nesse sentido mais positivo, como uma oportunidade favorável, muito positiva, para se buscar o essencial e não nos enredarmos naquilo que é detalhe e acessório e que ao longo do tempo se foi acumulando nos móveis quando estão muito tempo sem serem limpos, o que retira o brilho e a beleza, como já dizia o Papa Bento XVI. Às vezes é preciso limpar esse pó e ter a coragem da verdade, da realidade.
O Concílio do Vaticano II perspetivou isso, aquelas estruturas, aquelas realidades na Igreja que são suscetíveis de mudança podem mudar. Agora, já sabemos que todas as mudanças trazem consigo enormes resistências a par, também, de grandes entusiasmos e temos de estar preparados para tudo isso. É preferível que isso aconteça do que estar a esconder ou a ignorar ou a não querer saber dos problemas. É preciso ir ao encontro da realidade dos homens e das mulheres de hoje e das famílias de hoje. A família, para nós, é fundamental e na Igreja é essencial, porque é a Igreja domnéstica, todos nós saímos de uma família. O próprio Jesus quis nascer numa família.
Isto não é para entrarmos nos facilitismo mas é para, juntos, encontrarmos a melhor forma, também na família, de ser essa Igreja doméstica como o Concílio do Vaticano II lhe chamou e ser a grande construtora e promotora da paz, do equilíbrio da humanidade. Só posso ver com grande esperança e com motivo de muita alegria este método de trabalho que o Papa propôs e que não é fácil, porque, se ao nível de uma Igreja local a máquina é pesada, ao nível de uma Igreja universal é muito mais pesado ainda, porque são culturas diferentes, mentalidades completamente diferentes, realidades eclesiais muito distintas mas há o essencial que tem de nos unir. Daí o esforço grande de voltar às fontes, ao primeiro milénio e, sobretudo, aos tempos imediatos a Jesus Cristo e aos Apóstolos e percebermos como era vivido aquilo que faz uma família, como é vivida essa vida, de relação de amor e de paz e, se calhar, reconsiderar muitos aspetos jurídico-canónicos, porque, às vezes, prendemo-nos demasiado àquilo que é mais formal do que propriamente à substância da família.
Isso é o que vai abrir muitos horizontes porque a grande questão nestas discussões assenta nos valores que são o eixo do matrimónio, como a indissolubilidade, a fidelidade, a abertura à vida. Como, não sei. Não tenho soluções nem receitas.
Mas com o contributo da Igreja do Oriente e de outras sensibilidades eclesiais e culturais teremos de encontrar o caminho mais ajustado, porque, na realidade, se se discutem estes temas, é porque as coisas não estão bem.  E como aconteceu ao longo das várias épocas culturais da Igreja, quando se aponta para um determinado problema ou situação, ou é porque precisa de ser mais aprofundado ou porque não está a funcionar bem.
Neste caso, a opção do Papa de ter posto a mesma temática para dois sínodos seguidos é sinal de que é mesmo por aqui o caminho, de todos os dados de que ele dispõe e tudo o que lhe chega das Igrejas locais. Como, também, alguns padres conciliares que estiveram neste sínodo diziam, é provável que o próximo também não seja, de todo, conclusivo, e que seja necessário continuar essa reflexão. Mas só o facto de haver esta reflexão é muito positivo e esperançoso para a Igreja. A partir deste método de trabalho, outras temáticas da vida da Igreja poderão ser enfrentadas da mesma forma. Aquilo que se pedia já antes da eleição deste Papa é que houvesse uma colegialidade mais forte, um episcopado mais forte, no sentido de as conferências episcopais terem, também, um papel mais decisivo e determinante na orientação das Igrejas locais, numa comunhão muito estreita com o sucessor de Pedro mas menos centralismo da Cúria romana e estamos a testemunhar isso mesmo, para que haja uma maior comunhão das Igrejas locais e da representatividade das mesmas para o próximo sínodo.
 
(Entrevista completa disponível para assinantes ou na edição impressa)