Olhar // Nordeste Transmontano

Um deputado brigantino no cume do Kilimanjaro

César Rodrigues em Seg, 11/11/2013 - 12:36

Todos nos recordamos daquela cena de Demóstenes, de candeia na mão, em plena luz do dia, a percorrer as ruas de Atenas em busca do «Homem». Esta é uma das cenas da Filosofia e da História da Humanidade que mais me fascina. Na verdade, quer como académico, que também sou (ou fui?), quer como profissional do ensino e do jornalismo, o que eu procuro por detrás de qualquer ser humano, nos seus comportamentos, é o seu verdadeiro humanismo, aquilo que o define como pessoa.
Ao longo da minha vida encontrei casos duma profundidade humanística verdadeiramente entusiasmante. Não me seria possível citar aqui todos os casos de pessoas que conheci e que me despertaram uma admiração e um grande fascínio, tanto como académico como pessoa. Lembro-me, por exemplo, dum padre italiano que eu conheci em Macau e que abandonou a sua Itália natal para se dedicar aos leprosos de Coloane. Lembro-me dum avô galego que encontrei num campismo da Puebla de Sanabria e que foi acampar com 3 dos seus netos, durante uns dias, e que transbordava humanismo nas suas palavras e nos seus comportamentos. Quando, no momento de crise que atravessamos, tanto no plano da economia, como no plano dos valores, muitos ficam arrepiados só de ouvirem falar da política e dos políticos. Eu compreendo esses comportamentos. No entanto, essa é também uma forma de ver o problema pela rama e pelo preconceito.
Conheço o deputado Adão Silva há cerca de 40 anos. Fomos colegas de profissão, no ensino, e chegámos a leccionar na mesma escola. Como jornalista, acompanhei a sua vida pública enquanto político e com ele tive naturais discordâncias e até uma polémica pública através dos jornais. Mas se disser que a grande maioria das pessoas que lidam com ele, através da política, não o conhecem verdadeiramente e que é dos políticos que mais me despertam a curiosidade intelectual como pessoa e como político, muitos poderão entender estas minhas palavras como resultado da minha idade.
No entanto, se vos disser que Adão Silva é o único deputado com quem posso discutir política à luz de autores como Aristóteles, Descartes, Kant, Sartre e, pasme-se, até Levinas – um filósofo judeu relativamente recente que alguns licenciados em Filosofia parecem desconhecer – compreenderão melhor a razão de ser das minhas palavras. Nas conversas que, por vezes, temos, desperta-me a curiosidade intelectual sabê-lo à procura dos fundamentos éticos da Segurança Social através do estudo de autores como os que citei, mas também de outros como Heidegger, ou de estudiosos da História como Antony Beevor ou Hannah Arendt. Não sei se haverá dez deputados na Assembleia da República com quem possamos ter uma conversa falando de todos estes autores.
No último encontro que tivemos, falou-me da sua paixão pelo alpinismo, tendo subido já vários dos montes emblemáticos que os alpinistas conhecem. No último Verão subiu Kilimanjaro. A narrativa que ele me fez dessa sua experiência levou-me a pensar que alguns leitores do «Mensageiro de Bragança» também poderão estar interessados em conhecer essa sua experiência. Por isso, consegui convencê-lo a partilhá-la convosco.

Mensageiro de Bragança: Como é que surgiu a ideia de subir ao alto de Kilimanjaro?
Adão Silva: O Kilimanjaro é o ponto mais alto do continente africano. É uma das montanhas mais emblemáticas da Terra com uma baixa complexidade técnica na sua ascensão. É porventura uma das montanhas mais conhecidas sobre a qual tanto se tem escrito e tantos filmes se têm realizado. Por isso constituía um chamamento irresistível.

MB.: Há quantos anos é que te dedicas ao alpinismo?
AS.: Desde que fiz cinquenta anos, isto é, há seis anos.

MB.: De onde é que veio esse «apetite» pelo alpinismo?
AS.: Primeiro, pelas exigências físicas, psicológicas e emocionais que a escalada em alta montanha impõe. Depois, pela imensa liberdade que esse desporto comporta. Ainda pela rutura com as rotinas do dia a dia, onde se aprende a valorizar as pequenas coisas do quotidiano que, no mundo civilizado, damos como plenamente garantidas. Finalmente, pelo grãozinho de adrenalina e de aventura que traz rejuvenescimento físico e emocional.

MB.: Quais foram os montes que já escalaste?
AS.: Eu sou ainda um principiante e tenho procedido de forma gradual e cautelosa. Estive no topo dos Pirinéus (Monte Aneto), no topo das Montanhas do Atlas (Jbel Tubkal), no bíblico Monte Ararat, na Anatólia.

MB.: Fazes alguma preparação física antes da escalada?
AS.: Claro! Muita corrida em desnível, subida de pequenas montanhas perto de Bragança (Serra de Bornes, Serra de Nogueira, Serra de Montesinho, Serra de Sanabria), ginásio, natação. Tudo isto muito intercalado com o trabalho, que às vezes impõe irregularidades na preparação.

MB.: Alguma vez tiveste problemas físicos durante ou após alguma das escaladas?
AS.: Fisicamente, sempre que se ultrapassa os 3.500 metros, assiste-se a alterações fisiológicas importantes, ao nível pulmonar, cardíaco e da estrutura sanguínea. O corpo tem de se adaptar, rapidamente. E, às vezes, não se adapta tão prontamente como seria desejável. Esse é o maior desafio. De qualquer maneira, até ao momento nunca tive qualquer problema e o meu corpo é surpreendentemente rápido a aclimatizar-se. Mas já presenciei situações delicadas.

MB.: Não tens receio de que possas ter algum problema de ordem física, nomeadamente do foro cardiológico, durante as subidas?
AS.: Pode acontecer. Não penso nisso. Faço exames prévios ao nível pulmonar, cardíaco e músculo-esquelético.

MB.: Qual foi a escalada que mais te entusiasmou até ao presente?
AS.: A última, claro. Pelo seu simbolismo, pela sua grandeza, pelo seu exotismo e porque foi a mais alta até agora: 5895 metros.

MB.: Costumas fazer as escaladas com o apoio de alguma empresa do ramo?
AS.: Não. Pago do meu bolso e tenho dois compromissos. O primeiro, com a minha filha, consiste em levar uma vasta quantidade de medicamentos que, até ao momento, nunca usei, mas que já dei a companheiros em necessidade. O segundo é telefonar para a minha família, se possível todos os dias. E, surpreendentemente, no Kilimanjaro havia sempre rede de telemóvel!

MB.: Que tipo de apoio é que te foi disponibilizado durante a escalada de Kilimanjaro?
AS.: Apoio de guias locais e apoio de carregadores para levarem os cerca de vinte quilos de material que comporta o saco de expedição. Para além disso os carregadores tratam das tendas e da comida. Até das casas de banho portáteis, uma surpresa a roçar a anedota, para mim, que venho do mundo rural! No Kilimanjaro os carregadores é que transportam tudo. É surpreendente a força daqueles jovens. Noutras montanhas faziam esse transporte com animais. Claro que tudo isso até um certo nível, porque nas etapas finais és tu, a tua força e o teu querer.

MB.: Quantos elementos é que constituíam o vosso grupo de escalada?
AS.: Éramos cinco. Quatro ingleses e eu.

MB.: Qual foi a vossa relação durante a subida?
AS.: Sempre muito boa. De grande interajuda, que veio, aliás, a ser posta à prova quando um dos ingleses teve um sério problema de aclimatação no topo e foi severamente acometido, de súbito, pelo mal de altitude.

MB.: Já fizeste alguma escalada com elementos «indesejáveis»?
AS.: Não, até ao momento. E, se tal ocorresse, creio que dava meia volta. É fundamental que o grupo seja coeso, solidário e divertido.

MB.: Consideras positivo, em termos humanos, esse encontro com pessoas estranhas e desconhecidas?
AS.: É das coisas mais extraordinárias. Ganham-se saberes e trocam-se experiências que, na fugacidade do nosso quotidiano, não se consegue. Na montanha, o tempo tem um ritmo lento e consistente. A meditação sobre nós próprios e sobre os outros irrompe desimpedida dos constrangimentos que sentimos no dia a dia.

MB.: Quantos dias é que levaste para subir até ao alto de Kilimanjaro?
AS.: Cinco dias a subir e dois a descer. Para mim foi pena, porque estava à espera de fazer a subida em apenas quatro dias.

MB.: Quantas horas é que escalavas por dia?
AS.: Era variável. Mas o que mais interessa é mesmo a noite de ascensão ao cume. Até ali, anda-se a fazer a imprescindível aclimatação. Na subida ao topo tudo ganha espetacularidade. Primeiro porque a fizemos durante a noite. Saímos pela meia-noite e chegámos antes do nascer do sol, que começou a nascer pelas 6.00 horas, mostrando a enormidade da caldeira do vulcão que deixou de explodir há cerca de 250.000 anos e os glaciares em acelerado desaparecimento. Parece que vão desaparecer dentro de 15 anos. Depois porque é a parte em que nos pomos inteiramente à prova: física, emocional e psicologicamente. Finalmente, porque atingimos o nosso objetivo, o que comporta um elevado grau de felicidade e de autossatisfação.

(entrevista completa disponível para assinantes ou na edição impressa)