2017: Há lugar para a esperança

Antes de mais, BOM 2017, para todas e para todos.
Penso que há razões para termos esperança em 2017. Mesmo que as não houvesse objectivamente, o ideário cristão permite e recomenda termos esperança e fé nos homens. Um cristão vê sempre o lado bom dos homens, mesmo quando generosamente em excesso.
Foi este optimismo católico que permitiu construir a democracia social ocidental e aquilo que a fundamenta: a justiça, a igualdade de direitos, a solidariedade e a valorização do mérito, individual e institucioinal. Serão estes os pilares de uma sociedade justa, que equilibra a comunidade com o indivíduo, a regulação com a liberdade.
Uma sociedade justa equilibra a iniciativa individual e institucional com os valores do projecto de comunidade. Equilibra-a mas não a anula nem a sobrepõe à coesão da comunidade. O objectivo político-social da democracia social foi sempre salvaguardar a liberdade dentro de parâmetros de equilíbrio com o progresso da comunidade. Por vezes, é necessário dar mais força à garantia da liberdade. Outras, é preciso deter a liberdade para dar força à coesão social. Mas nunca de forma a cair nem no privilégio da liberdade (liberalismo) nem no privilégio da comunidade (comunismo, socialismo comunitarista, autoritarismo e absolutismo).
O mundo pode ser visto nos termos acabados de referir. A busca de liberdade e a procura de soluções comuns conducentes à regulação dos recursos, do progresso e do respeito pelas necessidades dos diferentes povos. Apesar do triunfo do liberalismo, a ONU e as outras instâncias internacionais foram concebidas numa perspectiva democrática-social. Porém, o poder de diferentes estados – se não fosse dos cinco com direito de veto (EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China), seria de outros -, impediu um verdadeiro triunfo da regulação porque há estatuto de poder conforme a riqueza e poderio militar dos países. Mesmo assim, apesar de a regulação ter sido articulada como o controlo, estas instâncias têm realizado um trabalho notável de contenção dos conflitos e de discussão pública dos mesmos. Veja-se o recente caso de resolução do fim da construção de colonatos em territórios palestinianos ocupados por parte de Israel. Mesmo tendo dito que não respeitaria a resolução, Israel conteve a construção.
A população dos países ocidentais vive, apesar dos muitos problemas, num mundo feliz: relativa segurança, liberdade de quase tudo, recursos suficientes e uma ideologia de coesão social que deriva dos projectos cristão católico, cristão evangélico ou protestante, cristão ortodoxo e comunitarismo republicano. Estes quatro ideários adoptaram a liberdade de vida, a tolerância face ao diferente e a solidariedade como princípios de organização comunitária.
É nestes pressupostos que vemos razão para o optimismo e para a esperança. Desde que exijamos reciprocidade de comportamentos e atitudes, não vemos mal na integração de diferentes. Porém, sermos tolerantes para com os intolerantes é um erro que pagaremos muito caro e do qual já não conseguiremos libertar-nos face ao envelhecimento das nossas sociedades.