25 de Abril, a obra por acabar

Passou anteontem o 43º aniversário sobre o golpe militar de 25 de Abril de 1974 e o 41º sobre a entrada em vigor da Constituição que resultou dele e que instituiu a democracia pluralista baseada em partidos e melhorada com a revisão constitucional de 1997 com a possibilidade do referendo, da petição popular e da candidatura de cidadãos independentes de partidos às eleições autárquicas.
Tenho duas memórias principais do 25 de Abril: 1) a ansiedade do intervalo de tempo entre as canções «Grândola, Vila Morena» e «Depois do Adeus» 2) a alegria popular perante a queda do Estado Novo e os abraços que as pessoas nos queriam dar nas ruas ao ponto de nos perturbarem a acção. Os gritos de viva a liberdade e de fascistas, fascistas, ecoavam por todo o lado mas ninguém fazia uma pequena ideia nem do significado do termos nem da confusão e da instabilidade que viria a seguir-se.
A condenação do regime deposto e dos seus agentes era unânime e ninguém se lembrava de um dos princípios fundamentais da democracia, o direito ao contraditório por parte dos acusados. E, quando, depois da «festa», eu perguntava, de vez em quando, «então, só estes é que falam?», a resposta era sistemática: «Isto é uma revolução e, portanto, só os revolucionários é que mandam». «Pois eu acho mal porque, assim, eles também podem virar revolucionários ao contrário», respondia eu.
Gritava-se liberdade, liberdade e a palavra parecia mágica como se gerasse libertação de todos os males e trouxesse, só por si, todas as felicidades e todas as riquezas. Ninguém tinha a noção de que a palavra liberdade, reivindicada essencialmente pelo PCP e pelo PS, era a essência do liberalismo contra o qual se lutava agora sob o epíteto de fascistas, capitalistas e exploradores do homem pelo homem. Ninguém fazia ideia do On the liberty de John Stuart Mill segundo o qual a liberdade tem limites para baixo e para cima.
Aos poucos, durante o resto de 1974 e até 31 de Outubro de 1975, foram-se roubando as empresas e os campos aos seus proprietários, que eram afastados, até da sua posse, instituindo comissões de trabalhadores e consagrando o domínio da classe operária nas empresas e nos campos. Só que, impreparados e preguiçosos, os trabalhadores deixaram, na maior parte dos casos, as empresas irem à falência.
A contrarrevolução veio a partir de Agosto de 1975, baseada na reação da nação cristã e da NATO contra a extrema-esquerda e contra a instabilidade económica, militar e social. O VI Governo Provisório (19/9/1975 a 23/07/1976), presidido pelo Almirante Pinheiro de Azevedo, com participação do PC, do PS e do PSD, apelou à ordem e à restauração dos valores tradicionais da nação portuguesa e do gozo da liberdade política e social com regras e no respeito pela ordem e pelos outros.
A partir da resposta militar de 25 de Novembro de 1975 ao golpe de extrema-esquerda, de 22 do mesmo mês, o país entrou no caminho da democracia pluralista baseada nas estruturas económicas e sociais do antigo regime ou democracia à maneira portuguesa. E, lentamente, da revolução só ficaram os apoios sociais, a igualdade sem responsabilidade, a liberdade sem critério, a violência gratuita, a corrupção e a ditadura da censura e dos jogos político-partidários.