Adeus Ano Velho

Sai de cena deixando poucas saudades a todos quantos pesam as inquietações referentes ao ano novo acabado de chegar. Os momentos de alegria ocorridos durante os doze meses da sua ossatura contam-se pelos dedos de uma mão (como faziam os meninos na época das ardósias) sobrando dedos pois prevaleceu o desajuste entre o merecido e o conseguido.
Conhecedor (presunção e água benta…) dos acontecimentos políticos de tomo ocorridos em Portugal no ano ora acabado escolho quatro figuras as quais ante os meus olhos justificam desenvolvimento ligeiro (o espaço não tende como a massa do pão), todos de cunho nacional pois os de lá de fora são esquartejados e dissecados por uma multidão de argumentistas, analistas, comentaristas, especialistas, jornalistas e opinadores e outros homologistas de vários matizes e cerziduras.
Sem peias aponto a eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU como refulgente exemplo de sageza de sábios, argúcia de argutos e manha de manhosos de diplomatas portugueses de alta estirpe. Na esteira de aqueles portugueses aparentemente bisonhos que ousaram contradizer o notável fundibulário humanista e filósofo Nicolau de Cusa durante os trabalhos conciliares do Concílio de Basileia O futuro Cardeal, autor da impante obra Da Douta Ignorância, ficou impressionado pela clareza argumentativa dos portugueses.
Pouco leem as obras do humanista referido, lendo-as ganhavam a oportunidade de reflectirem acerca da evidência de antes de o ser já o era, na clara textura de um trabalho de anos e anos até ao desfecho final – vitorioso – a cintilante eleição de Marcelo Rebelo de Sousa. Na esteira de Mário Soares recebeu educação e formação conducente à ascensão ao topo da pirâmide política. Outros receberam os mesmos desvelos e não o conseguiram.
A vitória de Marcelo além de concludente sustentou-se em anos de trabalho pertinaz, cuidados na escolha de amigos e inimigos, rigor no gasto de energias, fuga a situações de risco, salpicos de gotas humorísticas, cálculo sério sobre potenciais adversários, alargada rede de contactos, fino registo de apoios a pedir na altura oportuna. Ganhou cativando votos de todos os quadrantes. A continuar acertado no passo rápido e elástico, a distribuir beijos e abraços, nunca esquecendo a mensagem das obras de misericórdia, Marcelo arrisca-se a ganhar segunda vez obtendo estrondosa percentagem digna de figurar nos manuais de Ciência Política. É outra figura do ano.
A terceira por nás e nefas vem do «universo» futebolístico, trata-se de Fernando Santos treinador do denominado desporto-rei. Seco nas palavras, avesso a rumores, trabalhou alguns anos na Grécia, aí deve ter tomado conhecimento da terrível mensagem: Estrangeiro, vai dizer aos Lacedemónios que aqui jazemos por obedecer às suas leis. Há outras versões, interessa-me realçar a firmeza granítica de Fernando Santos auto compelido a defender a passagem de Portugal até à final. Assim aconteceu. A táctica recorda Aljubarrota, Defender e acreditar na sorte, esta dá um trabalho enorme, quando se encontra beneficia os obstinados. O treinador engenheiro é um obstinado.
A quarta figura é António Costa, também educado no fito de ser estrela no firmamento político guindou-se a tal há anos, frio debaixo de aparente bonomia quebrou tabus, encerrou os adversários internos em frascos e redomas, espantou a Europa pela audácia da aliança, faz-se sonso quando lhe interessa, nunca desarma, goste-se ou não foi vivaz protagonista em 2016. Bom Ano Novo para todos