Ao Prezado Assinante e Leitor Rui Fontes

Por motivos pessoais, fiz um interregno como colaborador neste jornal durante alguns meses. De volta às lides opinativas, aproveito o regresso para responder ao nosso insigne leitor e assinante Rui Fontes, que, na sequência do artigo que escrevi numa edição anterior, com o título “Há Democracia sem Partidos?”, me formalizou, via email, remetido ao Director do Mensageiro (que teve a delicadeza de o reenviar ao destinatário) a seguinte questão: “ Em que sentido aplica a palavra Democracia?”.
Pela forma como o meu caro amigo discorre sobre o assunto, não tenho dúvidas tratar-se de um interlocutor culto, avisado e bastante documentado. Estranho, pois, que o supracitado artigo, no contexto em que foi produzido, tenha dado azo a segundas interpretações. Ambos sabemos que os grandes valores da Democracia são intemporais, independentemente de se tratar (como o meu caro muito bem refere) das “Democracias Gregas”, das “Democracias Populares” dos “Estados Democráticos” e das “Repúblicas Democrática”.
Da leitura que fiz das suas palavras, não é difícil perceber que as nossas diferenças de concepção do mundo e da política são de pormenor, e nem sequer têm a ver com questões ideológicas. Ambos partilhamos as mesmas preocupações, quer no conteúdo quer na dimensão dos problemas da sociedade contemporânea.
Se ler com atenção apenas o 5.º parágrafo do texto e os pontos que se lhe seguem, há-de perceber que a resposta à pergunta que me colocou só poderia ser pleonástica: está lá tudo aquilo que julgo serem os grandes senãos da nossa Democracia. No entanto, tenho a certeza que o estimado leitor partilha comigo a ideia de que, apesar da partidocracia, do clientelismo, do caciquismo autárquico, da moral nivelada por baixo no exercício da governação nos diferentes níveis, de se ter desvirtuado a palavra “liberdade”, quantas vezes confundida com libertinagem, não prescindimos do Regime vigente.
E direi mais, ante o seu pessimismo e a certeza de que os políticos não são todos iguais: Costa e Marcelo representam uma lufada de ar fresco na nossa Democracia.
Ou muito me engano, ou o distinto leitor Rui Fontes, quando cita Abraham Lincoln, não simpatiza lá muito com a palavra “povo”. Curiosamente, eu também não morro de amores por ela, quando o vulgo é conotado com um ser seguidista e ignorante. Substituamos, então, o conceito lincolnian, segundo o qual “ …A Democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo”, pela versão que melhor serve a temporalidade: “ A Democracia é o governo ao serviço dos cidadãos”.
Quanto ao receio, por si manifestado, perante as suas convicções, de o reputar de fascista, essa é uma possibilidade que jamais ocorreria, porque não tenho motivos, porque o recurso ao insulto não faz o meu género, e por não me sentir com autoridade moral para fazer juízos de valor sobre quem, à distância, me parece possuir.
Pelo contrário, agradeço a amabilidade em ter despendido algum do seu precioso tempo na leitura do modesto texto que motivou a sua lúcida, válida e preciosa opinião acerca do tema.