Barcelona

A quem percorreu, em cálida tarde estival as cosmopolitas  e acolhedoras Ramblas de Barcelona não lhe é fácil imaginar o drama que ali se viveu, recentemente, por causa do cobarde atentado levado a cabo por radicais islâmicos. Mas igualmente custa imaginar a possibilidade de, no mesmo local, cidadãos pacíficos que, ordeiramente pretendiam expressar a sua opinião sobre uma situação que a eles, mais do que a ninguém interessa e diz respeito.
A carnificina gratuita e desumana suscitou, desde logo, uma larga e unânime reprovação de todos os quadrantes. Nada justifica o recurso a tais níveis de violência, nada pode sustentar a decisão de massacrar cidadãos inocentes seja qual for a legitimação religiosa, étnica ou qualquer outra que se possa alegar. Daí a repulsa generalizada.
E o que pode fundamentar cargas violentas de polícia de choque sobre jovens, adultos e tantos idosos que, perante a intransigência cega de serem ouvidos e de lhes ser concedido o direito de expressão livre, resolveram gravá-la depositando em urnas anónimas e democráticas a expressão da sua opção? Que Lei que reclamando-se de democrática pode condicionar, pela força, se preciso for – como foi – a liberdade de expressão pacífica e ordeira?
É bom referir e realçar que a atividade a que os catalães se entregaram no passado dia 1 de outubro não era em si, a tentativa de implementação da independência e separação do reino espanhol, queriam apenas e tão só, manifestar o seu entendimento sobre o seu genuíno sentimento de pertença a Espanha em que foram integrados há alguns séculos atrás. Alegam que esse ato veio trazer a discórdia e divisão mesmo na própria região em que um largo espetro de cidadãos pretende a separação mas onde, garantem, há, igualmente, uma larga faixa de catalães que não abdica da condição de cidadão espanhol. Se assim é, então, mais uma razão para não só permitir, como até apoiar a realização de um referendo que, de forma livre e explícita viesse demonstrar o que, de outra forma, não passa de um mera suposição.
Haja verdadeira razão nos que se opõem à expressão catalã e venham confrontá-la. Ao usar da força contra os que apenas brandem as suas convicções estão, de forma indireta, a dar-lhes razão pois que o recurso à violência apenas se justifica como último recurso perante uma agressão violenta (o que não era reconhecidamente o caso) ou quando já mais nenhum outro argumento existe para sustentar posições absolutamente obstinadas. Essa é a maior explicitação do que parece óbvio e que se traduz no facto de que não é lógico que seja a maioria dos espanhóis a determinar e condicionar aquela que é, ou pode ser, a ambição legítima de uma parte, sobre assunto que lhes diz respeito, quase em exclusivo. Mesmo sendo verdade que a eventual separação da Catalunha possa afetar todo o reino ibérico. E daí? Alguém ignora que o Brexit afeta não só os domínios de Sua Majestade, mas igualmente toda União Europei? E contudo ninguém veio reclamar, por ser reconhecidamente absurdo, que a consulta sobre a permanência ou não do Reino Unido devesse ter sido feita a todos os europeus em vez de se cingir, apenas aos cidadãos britânicos. Igualmente a expressão sobre o destino da atual região espanhola deverá ser explicitada sem quaisquer constrangimentos ou condicionantes e depois, com certeza, negociada e acordada com os representantes do resto do território.
 
Considerando-me um cidadão defensor e cumpridor da Lei, quando de um lado vejo cassetetes e botas cardadas, mesmo que respaldadas num determinado quadro legal e do outro observo cidadãos armados com um boletim de voto que heroicamente lhes resistem, eu não tenho a mínima dúvida de que lado devo estar.