A Barragem e a Natureza

            Foi uma aflição! E mais do que aflição, uma comoção coletiva que provocou na gente das margens daquele rio um medo terrível. Medo que subiu varrendo as ladeiras e voou até longe carregando um terror arrepiante, selvagem, brutal! Parecia que a terra se levantava das profundezas dum abismo!
O forte abalo que se fez ouvir concentrou-se nas fundações da enorme e velha barragem que, não resistindo àquela força titânica, troou como o mais amedrontador trovão, cedeu, ruiu e libertou o mar que, por sua causa, se formara.
Logo que aquela mole de água se viu livre, tragicamente detonou em fúria tão colossal que acabou por derrubar com fragor o que restou da estrutura que a impedia de correr.
            A montante, percebia-se que aquele monstro líquido, baixando pelas ladeiras, deixava à mostra terras lavadas e escorridas que mostravam aos olhos esbugalhados das pessoas presas ao chão, hipnotizadas, a tremer, os estragos provocados por aquela súbita hecatombe: barcos de recreio, estruturas flutuantes com casas e lugares de lazer, troncos e raízes de árvores, enormes calhaus, cadáveres de animais…!
            Já no alto das ladeiras, se avistaram duas multidões que, correndo desordenadamente, procuravam misturar-se com os moradores das margens que só então acordaram do hipnotismo coletivo. Os lamentos, misturados com o brado duma calamidade como esta, foram levados pelo vento e espalhados por horizontes.
             A jusante, a princípio, só se distinguiu o som cavo e sinistro provocado por aquela formidável derrocada. Depois é que se viu e ouviu, com indescritível intensidade, toda a avalanche vinda de montante, ao mesmo tempo que se avistava, num vórtice destruidor, toda a espécie de despojos de uma tragédia nunca imaginada por aqueles sítios.
            A imprevisível torrente foi tal que, na confluência, atravessou as águas do rio em que desaguava e tendo subido a desnudar a escarpada ladeira, estrondosamente caiu, em reboliço, pela encosta contrária, inundou os terrenos e formou um lago, a perder de vista, em cujas águas barrentas, ficaram submersas centenas de pessoas, de animais e de inúmeros detritos.
Angustiosos dias passados, quando a súbita enchente se transformou em águas pacíficas, é que toda a gente pôde apreciar a dimensão de tamanha calamidade.
Descendo paralelamente à amansada corrente e passando entre dois colossos que, intrépidos, conseguiram manter-se em pé, pôde ver-se toda a desolação: as aldeias e as quintas a jusante da barragem desapareceram por completo e não se avistava qualquer vestígio seu nos terrenos em que haviam sido implantadas, tal como não se percebiam quaisquer testemunhos das abundantes culturas que ali vicejavam - terrenos transformados em perigoso lodaçal para onde foram arrastadas e se afundaram enormes estruturas de uma obra gigantesca; tal como, no que foram verdejantes prados, sobressaiam pontiagudos pedregulhos. Das extensas veigas cuidadosamente tratadas, só muito a custo podia adivinhar-se-lhes o lugar.
No ar, voavam em círculo centenas de aves assustadas, desorientadas e perdidas, sem conseguirem descortinar os ninhos onde viviam e criavam os filhos.
Nuvens negras, descomunais e ameaçadoras escureciam os ares, às vezes rasgadas por ofuscantes raios e abaladas por terríficos trovões – nuvens que, num ápice, despejaram toneladas de água sobre aquela desolação.
A amargura tomou conta das gentes que, no desencanto dos corações, as uniu numa fervorosa e dolorosa prece, de braços erguidos longamente aos céus, acabando por perceber a razão e o poder da Natureza!