Bragança Municipal

Acabo de receber o Boletim Municipal relativo ao primeiro semestre do ano. Em bom papel, profusamente ilustrado, relata e revela os acontecimentos mais importantes na óptica da governação acontecidos no concelho. Propaganda pode dizer o opositor político. Pode.
Relativamente à propaganda e sua eficácia abundam tomos densos e difusos, só que no caso em apreço os factos relatados são indesmentíveis, pode-se não concordar, não se pode ignorar a sua concretização.
As pessoas padecem do mal da paixão capaz de as levar a enviesados olhares, a paixão determinou a ira da coruja quando contemplou estarrecida a morte dos seus filhos pela majestática águia, para a qual aquelas minúsculas aves não passavam de hediondos bicharocos. Também é assim no cenário partidário, sendo muito difícil resistir ao apego do palpitar do coração, daí tantas desilusões, porque só os iludidos as sofrem.
Claro é possível «pintar» cenários eivados de pujante cromatismo, não podemos é transformar a real/realidade na composta realidade virtual, daí a importância da fotografia na exemplificação das volumetrias sólidas, dos gestos e das representações verbais a ficarem registadas para memória futura.
Os patrulheiros do politicamente correcto aludem ao culto da personalidade prevalecente neste género de publicações, no entanto, o possível exagero acarreta prejuízos a longo prazo ao beneficiado do momento, as pessoas não são parvas, logo maculam sem piedade através do chiste ou do dichote o glutão sem tino ou roque.
Num outro olhar só quem não quer ver não vê outras figuras simples na vida, quantas vezes anónimas, e compostas porque saíram da caixa devido a méritos alcançados ou cargos desempenhados. No futuro quando se referir este ou aquele temos a possibilidade de o associar à época, ou ao acontecimento.
O Dr. Francisco Felgueiras Júnior e o Sr. Artur Mirandela na esteira de outros escreveram páginas rutilantes a enaltecerem infelizes de vários tipos, quanto eu gostava de lhes contemplar as figuras, tentar decifrar as mensagens dos seus olhares como conseguimos perscrutar nos quadros de pintores exímios no desenho (andam por aí artistas incapazes de desenharem um torso, um rosto, um ouvido) ou nas fotos de fotógrafos de talento no esquadrinhar quem fixam.
Guardo no baú da memória a carantonha do Dr. Gregório, o penso sobre o nariz purulento, a pasta ajoujada de papelada, a namorar gestualmente uma janela da casa onde vivia a irmã do General Neto. Namorava noite fora, ria alegre quando vislumbrava o ondear da cortina rendada atrás dos vidros. O Dr. Gregório carregava a fama de ter treslido as sebentas papagueadas na Coimbra dos doutores, a Candidinha bate-palmas carregava outra história, podia multiplicar os exemplos de figuras da cidade cujas particularidades as tornaram notadas. E, as outras? Agora, podendo parecer exagero escrevo: aparecem no Boletim Municipal. Retocadas ou não surgem.
Não tenho dúvidas sobre o carácter político dos conteúdos das revistas municipais, ninguém tem, só que nelas inserem-se informações referentes ao arfar das comunidades que só elas podem conter. A razão reside nos custos do carreamento da informação nos jornais, do reduzido mercado publicitário, do triunfo do efémero virtual.
Na Ilustração Portuguesa e na Ilustração Transmontana encontramos referências a acontecimentos e gentes transmontanas, aludem à Ilustração no duplo sentido da palavra, também do Boletim Municipal podemos extrair múltiplas inferências. Mesmo quando o Boletim é feio, mal redigido e pior impresso. O que não é o caso em apreço.