Burkas invisíveis

Ela foi bonita, insinuante, batia o tacão a preceito. Encontrei-a há dias num espaço livreiro lisboeta. Sacões de surpresa no santo-e-senha do reconhecimento, ela ruiva carregada, eu detentor de farripas mal distribuídas. Canosas.
Ao redor de mesa de tapas falámos dos dois, de percursos, de afectos, do roer do tempo ainda na caixa da via. Tapeação concluída, beijinhos meneados, adiciono ao ritualizado adeus o som imaginário da canção Adeus Roma, versão Dean Martin. Ficou o dito, a continuação será ou não.
Estudou, cursou, casou. O marido pressionou-a a colocar o diploma no armário porque a família dela retinha posses, porque ele exercia funções bem remuneradas. Aceitou a imposição maridal, na cidade recebia vénias, sorrisos e salamaleques via paterna, via do seu berço de prata continuado a ponto de renunciar a «dar» aulas ou criar dando voo à imaginação, e via do desempenho conjugal.
Sair à rua sozinha tornou-se raro, o esposo insistia no acompanhá-la a par e passo, à frente ou ao lado, a residência desceu à categoria de gaiola dourada: leituras múltiplas, bordados, talvez tivesse em casa piano ou instrumento de corda.
Há anos a corda do casamento partiu-se. Ele zarpou lépido, ela não saiu do casulo. O quotidiano reduziu-se a parcas viagens, esparsos convites, os réditos caíram consideravelmente consequência da usura do tempo a proteger os inquilinos idosos, o dinheiro gastar-se mais nos remédios, nas tintas e nos cremes empregues no disfarce de cãs, papos e rugas. Olha-se ao espelho, não resiste à tentação do comparar-se, continua a manter o peso da época primaveril.
Lastima o ter embarcado na nuvem do «não necessitas de trabalhar», não ter previsto os efeitos económicos se o contrato findasse (não leu Balzac) as aparências iludem. Agora é tarde, não adiante torcer a orelha. Agora, vasculha e varre memórias, despiolha álbuns, recorda conhecimentos e amizades do antes do agrilhoamento.
O sucedido a esta Figura feminina, ainda hoje se multiplicar por centenas na sociedade portuguesa, por isso o trago à colação, em virtude de a torto-e-a-direito comentarmos, discutirmos, condenarmos a imposição de burkas às muçulmanas, repugna-mos a manutenção de práticas aberrantes, discriminatórias, humilhantes, das mulheres. E, no entanto, em nosso redor, Mulheres das classes mais elevadas continuam a viver debaixo da canga de burkas invisíveis.
Não considerei as Mulheres de menores rendimentos e posição social, essas, desde tamaninas habituadas a enfrentarem as agruras em casa e na rua, cedo foram obrigadas a rasgarem as vestes, a encherem as mãos de calos, a nunca terem férias, a desconhecerem o sabor de um batom nos lábios, o efeito do rouge nas faces. As burkas delas são de outro tecido, até há pouco tempo no estado de viúvas vestidas de negro da cabeça aos pés.
Todas as burkas representam acéfala submissão, as invisíveis, as de sofrimento qual suplício de Tântalo, continuam a ter representatividade na sociedade Ocidental, a dita dos valores, da exaltação da ética, da moral. Pois!