Calhaus Graníticos…

Acredito que no sótão das memórias, lá no baú das recordações, todos juntamos tralhas para mais tarde recordar. Numa das caixas de lata, de flandres claro, imaginária, dormem tesouros das nossas vidas, dos degraus de crescimento. Amiúde basculho, reviro, encontro-me lá para trás, nos inícios, nos meios, nas estradas que aqui me trouxeram. Em todos os patamares do ensino, de aprendizagem, gosto do que encontro no inconsciente, quando nele remexo.
Na Primária, no Pé-do-Monte de Felgueiras, nas fraldas de Santa Quitéria, na terra do Pão de Ló de Margaride e das camisas Triple Marfel, vejo-me com os pés no ar, bem sentado nas saudosas carteiras que jamais esquecerei, molhando o bico da pena, no tinteiro de tinta permanente. Que delicia.
No Primeiro-Ano, no Colégio Infante D. Henrique, propriedade da Família Barros de Moura, que deu à Republica um ilustre Deputado, recordo a separação, no recreio, de meninos e meninas. Estupidez do Regime, triste elite.
No Segundo-Ano, já no Porto, no Colégio João de Deus, dos Padres Albano e Germano, fixo-me numa Lenda que pairou entre este colégio e o Liceu Alexandre Herculano. São muitas as histórias que se contam sobre o Professor José Gamboa, todas de terror. Porque o conheci bem, lados bom e mau, prefiro a faceta hilariante do personagem, figura de Adamastor. Conto a história, não em chacota, mas com veneração, de saudade por genuína figura, professor de corpo inteiro.
Se algum aluno tropeçava, isto é, se por má prestação nos TPC, apesar de soberba explicação da matéria, na véspera, algo correria mal para o infractor.
As nossas salas de aula eram em anfiteatro e o lugar do Licínio situava-se no extremo da coxia. Um dia, porque trocou o advérbio, foi chamado ao quadro e incomodou meio mundo para lá chegar. Com os olhos em baixo, de medo, ouviu e entendeu o sermão: - você é um calhau granítico, em vez de cabeça tronco e membros, você tem mica feldspato e quartzo. Nunca se senti diminuído por aquela reprimenda pois, ela mesmo, foi genial, soberba.
Agora, assistindo estupefacto aos acontecimentos dos fogos que assolam o país, depreendo que querem fazer de nós, seres não pensantes, inertes. Ao ouvir dissertar a oposição, global, dão-nos a entender que, com eles, o fogo não existiria ou, existindo, nunca ganharia aquelas proporções ou consequências. Sabemos que o malnascido SIRESP atravessou a governação Passos sem que tenha sido escrutinado ou modificado.
Atacar uma ministra, não por incompetência, mas por não ter jeito para a coisa politica, é soberba dos fracos.
Tentar ganhar fôlego politico com a aritmética do número, dos que sucumbiram no desespero, é extravase do Sentido de Estado.
Por tudo aquilo como gostaria de ouvir o vozeirão do Professor Gamboa, ecoando de Norte a Sul, advertindo os políticos da troca, Cabeça, Tronco e Membros por Mica, Feldspato e Quartzo. Pobres Calhaus Graníticos…