Cem anos depois: «Memória do Mal, Tentação do Bem»

Antes de mais, uma notícia e um convite: vai ter lugar, no dia 6 de Dezembro, às 21h00, no Centro Cultural Paulo de Quintela, uma sessão sobre Pobreza e Exclusão, promovida pela Comissão Diocesana Justiça e Paz. Ficam todos convidados.

Durante a semana passada, reli a obra Cem anos de Socialismo (1889-1989), de Donald Sassoon (2 volumes e 1.000 páginas), sob a supervisão do conceituado historiador Eric Hobsbawm. A intenção era preparar um artigo sobre o que ficou incorporado na teoria política ocidental como aquisição definitiva a partir da revolução socialista soviética de 1917-1973), até aos acordos SALT I, II e III, de redução do armamento entre EUA e URSS. Isto porque o último período da liderança de Leonid Brezhnev (1964-1982) já é de decadência do projecto socialista soviético, e o período 1985-1989, sob a liderança de Mikhail Gorbachev, já é de ocidentalização mitigada do regime sob a ideia de «perestroika» (abertura) e de «glasnost» (transparência), até à queda, em 1989.

 
Thomas Khun, nos seus livros «Revolução Copernicana» e Estrutura das Revoluções Científicas, explica-nos que as rupturas nos paradigmas explicativos da realidade, natural ou social, ocorrem a partir de aquisições científicas  e sociais definitivas. A minha questão é então a de identificar aspectos da experiência revolucionária soviética que constituíssem aquisições definitivas para a teoria política. Infelizmente, não encontrei nenhum positivo e encontrei muitos negativos.
Os aspectos positivos que são atribuídos ao socialismo soviético como a igualdade entre as pessoas (Rousseau,1759)) e entre homens e mulheres (Woolstonecraft, 1776, e Stuart Mill, 1862), a oposição entre o pensamento e interesses das pessoas de classes sociais diferentes (Hegel, 1815, Ostrohorsky, 1890, Weber, 1900) e o nivelamento das condições económicas e sociais para uma vida económica sem egoísmos e sem interesses individuais, num regime cooperativo (Giovanni Campanella, 1620, Saint-Simon e Charles Fourier, 1800-1820) são muito anteriores à experiência soviética não sendo por isso um constructo dela derivado.
Já a descoberta de aspectos negativos como a maldade da natureza humana, a alienação da consciência ao pensamento do opressor e a disfunção da burocracia em que a regra num sentido gera o efeito contrário resulta de estudos que os cientistas da administração, da psicologia e da psicologia social realizaram sobre a realidade soviética. Os relatos de Hannah Arendt, de Raymond Aron, de Tzvetan Todorov, de Alexandre Soljenitsine sobre os campos de concentração e as distorções administrativas evidenciadas por Cornelius Castoriadis, Claude Lefort, Nikos Poulantzas, Madeleine Grawitz evidenciam que da experiência socialista soviética nada há a reter a não ser não repeti-la porque se revelou ainda pior que o seu contrário, o capitalismo.
Resta-nos a terceira via, que hoje continua a ser reclamada como superação das oposições entre o socialismo soviético e o capitalismo e que já tinha sido identificada em 1853 pelo Partido Social-Democrata Alemão cujo líder, Ferdinand Lassale, respondia a Marx, em 1952: «Ai vocês querem acabar com os ricos? Pois nós, o que queremos é que os pobres se venham a tornar também o mais possível ricos.». Iniciou-se assim a construção do conceito de classe média que Otto Bismarck consolidaria enquanto chanceler alemão, entre 1883 e 1889: sistema de saúde, sistema de reformas, regulação das condições de trabalho, igualdade entre mulheres e homens nas condições de trabalho e relações laborais, salários mínimos e proporcionais ao mérito.
Sintetizando com Todorov, devemos recordar o Mal para prosseguir o Bem.