Com o fogo não se brinca

Naquelas manhãs de cenceno cerrado a minha avó materna pedia-me vigiar as brasas de carvalho, nelas iria ser colocada a grelha destinada a acolher alheiras comidas gulosamente na companhia de centeio e goles de café vindos da cafeteira aconchegada pelo borralho. Só que de vez em quando a minha falta de jeito e a íntima colaboração do gato as brasas espalhavam-se nas pedras lisas do Lar, obrigando a intervenção da dona da casa munida de vassouro e a advertir: com o fogo não se brinca.
Ela tinha razão, o homem gastou anos e anos a perceber o mecanismo conducente à «fabricação» do fogo e seu aprisionamento utilizando-o a seu belo prazer em múltiplas funções desde a guerra contra os inimigos até à iluminação e aquecimento das casas passando por tudo o mais do nosso conhecimento. A sua fulcral importância deu origem a religiosidades, crenças e mitos, a história do fogo regista tais laços acrescentando episódios onde ele surge na qualidade de ameaça quando levianamente é manipulado.
Ora, a recente e pavorosa tragédia ocorrida em Pedrógão e concelhos limítrofes serve antes de outras considerações para fazermos rigoroso exame ao modo como lidamos com ele, seja no acender uma fogueira no campo, seja no decorrer de uma sardinhada ou churrascada. Como procedemos? Tomamos precauções? Limpamos as ervas secas em redor do local estabelecido para a funçanata? Temos o cuidado de verificar sobre a existência de elementos capazes de potenciar a sua expansão fora dos limites estabelecidos?
Estas e outras interrogações servem de cursores do nosso comportamento, alguns leitores recordam incêndios ocorridos em medas de cereal devido a imprevidências de variado teor, outros lembram-se de fogos urbanos a darem azo à perda de vidas e consequentes prejuízos materiais. Nos anos quarenta do século passado deu-se um incêndio na Rua Nova superado pela audácia dos bombeiros tendo-se destacado no amansamento da fera o então Tenente Machado (Machadinho) mais tarde infatigável conversador na Praça da Sé, após ter sido deputado, governador civil e outros cargos, sempre figura influente nos bastidores da política local.
Os soldados da paz desse tempo, mal equipados e desprovidos de salário pegavam nos machados e nas mangueiras sem qualquer ajuda, melhor dito, escorados no apoio popular expresso em baldes, cântaros e ferramentas de uso comum.
Agora, as coisas mudaram para melhor, apenas o fogo se manteve fiel a si próprio – perigoso – aproveitando todas as artimanhas capazes de lhe concederem notoriedade pelas piores razões. Sabendo nós de tudo quanto nos beneficia se bem ordenado, bem domesticado, bem utilizado, obriga a todos, mas todos, fazerem o exame das debilidades potenciadoras da sua irrupção nas residências, nos quintais, nas hortas, nos jardins, nos caixotes de lixo, onde quer que seja, no intuito de não lhe conceder a mínima hipótese de mostrar o poder consumidor das nossas vidas e bens provocando dor e quantas vezes a morte. A lição de Pedrógão não pode ser esquecida seja no Verão, seja nas restantes estações. Com o fogo não se brinca!