Da Esperança à Vida: o dom do encontro

Agradecidos e agraciados pelo dom maior – a vida (e a fé) – dado por Deus em Jesus Cristo, a Páscoa do Senhor Ressuscitado conduz-nos para um outro olhar da existência humana. O horizonte da esperança cristã revela, deste modo, a sua maior doçura. A esperança abre-se como horizonte da existência humana no momento presente. Por isso, comunica a paz e a segurança ao sujeito, porque lhe testemunha que há futuro para ele. A existência desta certeza num futuro permite com que as pessoas aceitem e assumam, de maneira positiva, o presente em que vivem. Assim, a vida é medida pela certeza de que se é amado(a), de que se é esperado(a) na Casa do Pai com a ternura e a docilidade tão próprias de Deus. Belamente, o teólogo Bernard Lonergan diz que «onde o amor domina, é sempre um dom. […] O amor é a revolução, a força mais poderosa para transformar a nossa vida. […] E a fé é o reconhecimento desse dom. […] Quando a porta do amor se abre, o olhar do coração aprende a interpretar tudo de forma diferente. Nesse sentido, o amor é uma disposição transfiguradora mais do que um sentido transitório. […] E quando o dom do amor é reconhecido como vindo de Deus, a resposta é o que chamamos fé religiosa. […] Sim, a fé, nascida do amor e fazendo nascer o amor, é a coroa da nossa longa viagem, planeada por Deus, em direcção a uma plenitude vigente tanto no aqui e agora como no futuro que está para vir».
No entanto, algumas pessoas, quando perdem a fé em Cristo (será que alguma vez a tiveram?), substituem-na por uma fé dilatada nelas próprias, isto é, num ego inchado. A teóloga Flannery O’Connor ensina-nos que «no final de contas a fé revela-nos como somos valiosos, porque, apesar de tudo, Deus achou que valia a pena morrer pela nossa vida». E isto significa aprender a olhar com os olhos do coração: ver com os olhos daquele que é tocado pela ternura de Deus, daquele que não consegue não ter entranhas de misericórdia.