Das cinzas à conversão

Neste belo Tempo da Quaresma, a mudança e a conversão encontram o campo ideal, fecundo e fértil, para que o homem, criado e perdoado por amor, seja, cada vez mais, centelha da misericórdia e do perdão de Deus, para ele próprio, para os outros e para a comunidade. Quaresma não pode não ser senão incitamento para uma sincera, efetiva e decisiva conversão do coração ao coração de Deus.
A liturgia de Quarta-feira de Cinzas convida-nos, pela imposição das cinzas, ao reconhecimento da nossa condição: não de uma condição de miserabilidade antropológica, mas, antes, do reconhecimento amoroso em que cada homem é gerado pelo toque pessoal e único de Deus, insuflando-lhe a vida num acto irrepetível de graça.
                  Em muitas culturas, a cinza é sinónimo de morte, de transitoriedade, de penitência, mas também de purificação e ressurreição. E espalhar cinza sobre a cabeça é expressão de luto e de penitência. Ora, no Cristianismo ela assume o símbolo da penitência e da purificação. No entanto, a cinza é, igualmente, um poderoso e eficaz fertilizante: não só regula e equilibra o solo (o pH), como impede o aparecimento de parasitas no solo.
                  As cinzas provindas dos ramos de oliveira bentos no Domingo de Ramos da Paixão do Senhor são um sério convite para a renovação. Vejamos como. Deus ao criar homem (cf. Gn 2, 7) do melhor pó, da melhor terra, do melhor barro, fá-lo numa atitude de pura alteridade, de pura oblação, acto inefável de amor. Cria-o, molda-o, acaricia-o: faz dele Sua “imagem e semelhança” (Gn 1, 27). Finaliza com um indizível gesto de amor, pois completa a sua obra insuflando-lhe o sopro da vida, como que num gesto cheio de ternura, parecendo como que um beijo acariciado pelas Suas mãos. Deus revela, assim, a sua predileção, a sua estima, as suas entranhas de misericórdia para com o homem – pináculo da criação. E, por isso, a criação já não é só boa, antes, ela é, com a presença da humanidade, muito boa (cf. Gn 1, 31).
                  Assim, para a melhor terra, o melhor adubo. Por isso, é nossa responsabilidade de baptizados convertemo-nos definitivamente ao coração de Deus, de voltar à origem, ao princípio relacional da escuta da Palavra. Só um coração que é tocado pelo Coração é que será capaz de palpitar, acalentar, inebriar e transmitir o amor de Deus.
Só depende unicamente de nós esta mudança. A Quaresma é, acima de tudo, propósito de mudança, de renovação, de conversão. Ela é-nos dada pela Igreja com todas as graças e meios de santificação e de crescimento num apelo constante à conversão, como que a dizer-nos: ‘Tu és a melhor terra, em ti foi depositado o melhor fertilizante, foste abençoado, agora faz crescer a semente do bem e do amor em ti depositado pelo dom inefável de Deus. Ouve-O’. Pois, só a Sua Palavra é «capaz de suscitar a conversão do coração dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão» (Papa Francisco, Mensagem para a Quaresma 2017).