«De Fides» (Acerca da fé)

 
                  Desde os cartazes políticos até às mais inusitadas conversas, não menos vezes vemos o uso indiscriminado e abusivo da palavra (étimo) fé. Por conseguinte, decidi escrever esta breve e simples reflexão – num conjunto de três textos, a começar pela fé, passando pela esperança e acabando na caridade (amor) – para iluminar as almas “mais distraídas” e, igualmente, inferir aos demais que a fé é dom.
                  Em qualquer dicionário a palavra fé dirá qualquer coisa como ‘crença, compromisso ou fidelidade’. Certo é que tal definição peca por escassez. Na verdade, a fé implica sempre a consciência de dom, ou seja, de que é dada por um outrem, por um outro fora de mim que me faz sentir diferente, me faz olhar de forma completamente distinta. Este outro vem ao nosso encontro muito antes de nos decidirmos ir [ao seu encontro]. Apresenta-se-nos na paridade do nosso olhar: fala-nos na mesma linguagem, na mesma e única dimensão comum de todos nós – a dimensão humana e antropológica. Aqui reside a novidade e o encanto da fé, pois ela, depois da equidade antropológica, parece sair de cena, acenando-nos e seduzindo-nos para que a sigamos. E isto faz-nos lembrar o profeta Jeremias: «Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir!» (Jr 20, 7). Ao afastar-se de nós, ela convida-nos a caminhar ao seu encontro. E caminhar é conhecer, é crescer, é descobrir, é encontrar, é enamorar, é apaixonar! O acto de caminhar é, desde logo, o descobrir de mim mesmo, e uma descoberta que nos consciencializa quem nós somos e quem nos chama a ser. É a descoberta (da dimensão) espiritual de que somos profundamente amados! Este caminhar amante e amoroso ensina-nos, paulatinamente, que o amor é oblação e doação, é ‘morrer’ para o outro, pois o outro é que é realmente importante. Assim se compreendem as palavras de João, o Baptista: «É necessário que Ele cresça e que eu diminua (Jo 3, 30)». Com efeito, a fé desvela-nos o Outro, que o Outro é sempre o actor principal nesta trama existencial do amor e da existência amante. Deste modo, entendemos porque razão a fé é dom: ela é sempre dada por este Outrem, e se é dada não é minha, não me pertence, não é minha posse, não a posso manipular. É dom do amor maior que se dirige ao meu encontro para me fazer ser o que realmente sou: um ser criado pelo Amor para viver e testemunhar este mesmo amor.
                  Sabiamente, o teólogo Michael Gallagher, procurando parafrasear Bernard Lonergan, ensina-nos que a tomada de consciência da fé como dom já não implica o nosso esforço, mas antes «o nosso sim de reconhecimento, de gratidão e de uma autenticidade que não é nossa. Sim, a fé, nascida do amor e fazendo nascer o amor, é a coroa da nossa longa viagem, planeada por Deus, em direcção a uma plenitude vigente tanto no aqui e agora como no futuro que está para vir». Que aprendamos a docilidade da escuta, para que a fé visibilize, em mim e em nós, o amor maior e definitivo, testemunhando, definitivamente, a beleza de ser amado por um amor inefável!