«De Spe» (Acerca da Esperança)

Depois de uma simples e humilde reflexão sobre a Fé e as suas dinâmicas, somos, agora, convidados a cogitar sobre a Esperança. Hoje, o mundo hodierno inunda-nos de inúmeros vendedores de ilusões, de sonhos vãos, com custos duros e promíscuos, que, mais cedo do que pensamos, nos vêm cobrar com altíssimos juros as mentiras, os eufemismos e os mais tresloucados sofismas por eles proclamados. São estes ditos ‘arautos da esperança’ que me leva a refletir e a escrever sobre o tema da Esperança. Numa breve e rápida visita a qualquer dicionário, descobrimos que por esperança se entende a «disposição do espírito que induz a esperar que uma coisa se há-de realizar ou suceder; espectativa; confiança». A confiança é, assim, a palavra-chave na Esperança. Paulo, o Apóstolo dos Gentios, afirma-o, claramente, na Segunda Carta a Timóteo: «Eu sei em quem confiei» (2Tm 1, 12). E porque confiou foi capaz de esperar, de esperar activamente na arte contínua de amar e de cuidar. É curioso observar que, se alguém se mantém firme sobe a base da confiança, sabe que é real que o dom de Deus se aproxima na gratuidade da pessoa que confia, pois saber que se pode confiar (em (a)Alguém) gera automaticamente um circuito de confiança.
A esperança abre-se, assim, como horizonte da existência humana no momento presente. Por isso, comunica a paz e a segurança ao sujeito, porque lhe testemunha que há futuro para ele. A existência desta certeza num futuro permite com que as pessoas aceitem e assumam, de maneira positiva, o presente em que vivem. «A esperança que se abre ao cristão é feita com os materiais do Reino de Deus – justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14, 17) – segundo a condição ‘gratuita’ deste Reino» (In, Diocionário de Conceitos Fundamentais do Cristianismo, Paulus, Brasil, p. 227). O Papa Bento XVI reitera, na Carta Encíclica “Spe Salvi” (Salvos na Esperança), que «Deus é o fundamento da esperança – não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim: cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto. […] O seu reino está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcança. […] E, ao mesmo tempo, o seu amor é para nós a garantia de que existe aquilo que intuímos só vagamente e, contudo, no íntimo esperamos: a vida que é “verdadeiramente” vida» (nº 33).
Ser amado é ser gerador de confiança. É mais do que criar empatia: é criar um circuito permanente de confiança geradora de amor. Desafiemo-nos, aqui e agora, a nos deixarmos tocar pela e na docilidade d’Aquele que nos dá “verdadeira” vida, o autêntico sentido ontológico da existência. Na linha daquela intuição de Gabriel Marcel, segundo a qual dizer a uma pessoa «amo-te» equivalia a dizer «viva para sempre (comigo).