Deixem entrar o futuro…

As saudades eram muitas. A vida atira-nos para outros trilhos, os afazeres estabelecem prioridades, os tempos são finitos apesar de eternos. E foi agora, no pino de um Agosto abrasador, que os astros se juntaram mexendo no quotidiano, o consenso deu à costa, o destino ajudou e a família lançou-se à estrada. Lá longe, na quina direita do Portugal que somos, a nova albufeira transmontana punha-se a jeito para o desfrute.  
Nos meios de uma tarde de quietude sufocante, com vento que não bulia, com o alcatrão carregado de visitantes de outras origens, lá partimos de Lisboa rumo ao encanto, ao aconchego, ao descanso e, pois claro, à conquista das novas águas do Baixo Sabor. Porque o custo portageiro não perdoa, novo itinerário foi desenhado, o outro lado da serra maior, a da Estrela, ofereceu-se como alternativa não só desejada como agradecida. Já esquecemos a A23, temos ainda muito por descobrir no velho trajecto serrano que raspa em Oliveira do Hospital, Seia, Linhares da Beira e nos coloca em Celorico da Beira com tempos e distancias iguais ao do caro trajecto da doirada Scut. O IP3 é a escapatória ao infernal trânsito da A1 e o IC6 é a porta de entrada para o mundo maravilhoso de Camilo e Torga.
Aquelas curvas, aquelas vistas, aqueles ares e aqueles solares de manjar, de beira de estrada e virados ao frio da serra máscula, pedem desaceleração, pedem que se olhe o longe, que se abandone a linha do horizonte que trazemos pendurada na ponta do nariz. Nossa Senhora da Lomba, em Pinhanços, pouco antes de Carrapichana e após Seia é restaurante de hino ao deguste. É paragem obrigatória, que puxa a saliva, que cativa o convívio.
Já rendidos aos ventos que preparam os frios que aí não demoram, lá nos metemos a caminho do inferno de Torga, dos calores que não largam e potenciam a descoberta das sombras e das correntezas de águas, das ribeiras de encantar.
 Sabemos do tesouro escondido em Linhares da Beira, desde a Idade Média, mas urge galgar caminho pois que neto atento, o Gabriel, encaixado em cadeira protectora, unindo conversas e olhares, implora descanso através do bocejo e espreguiçar que só as crianças emitem.
O avançar da noite após Celorico não deixa ver o que haveremos de pesquisar, para trás ficou a barragem do Baixo Sabor Jusante, com refluxo à de Montante, que sopra o futuro acabado de chegar a estas paragens.
E pronto, eis-nos em Sendim da Ribeira, empurrados pelas vertiginosas IP2 e IC5. O céu estrelado, a orquestra de grilos nas boas vindas, saúdam-nos do vale imenso. No raiar da aurora, por entre o chilrear da passarada, fomos na demanda do desaparecido, ao encontro do actual, uma exuberante massa de água, um gigantesco e serpenteante mar, a frescura ambicionada nestas paragens, implorada em rezas ancestrais.
Não discutirei os prós e contras do aprisionamento provisório das águas do Sabor, encontraria para os dois lados os respectivos argumentos. As portas abriram-se em Trás-os-Montes, que os autarcas Deixem entrar o futuro…