Do Bom Jesus de Braga à água de Miranda

No passado dia 22 de julho, na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo assistiu-se a um lançamento estranho e, quiçá, descabido. A Câmara de Moncorvo, representada ao seu mais alto nível, veio publicamente anunciar a candidatura de Freixo de Espada à Cinta como capital da futura Região Transmontana!
Foi grande a perplexidade e a vários níveis. Que razão leva o autarca da Terra do Ferro a liderar uma candidatura do município vizinho quando não se conhece, da legítima e democrática liderança política freixenista, qualquer intenção, propósito ou sequer concordância com esta suposta aspiração? Que razão suporta esta iniciativa de querer colocar na terra de Guerra Junqueiro a sede de uma suposta região por quem recentemente se propunha, em tom de quase exigência, albergar a sede de uma Associação Nacional a que, curiosamente, tinha decidido nem sequer aderir? Refira-se que, esta iniciativa foi anunciada em Moncorvo, pelo Presidente da Câmara de Moncorvo, numa conferência promovida para falar sobre a linha do Sabor, a barragem das Laranjeiras e as Minas de Ferro e que, aparentemente, não lhe despertaram grande interesse. 
 
Como orador, a título individual e em exercício de cidadania, pude demonstrar que a manutenção da linha do Sabor, contrariamente ao que tem sido propalado, se for elétrica, tem um custo residual, só por si, sem contemplar as possíveis receitas da bilheteira, do despacho e outras (que o economista Daniel Conde explanou ao pormenor e com dados numéricos). Socorri-me, para isso, do exemplo do funicular do Bom Jesus de Braga para estabelecer um paralelo. O elevador da capital minhota, inaugurado em 1882 funciona, desde então, sem custos de operação, totalmente movido a água. A carruagem que desce é carregada com um volume de água necessário e suficiente para compensar a diferença de peso da que sobe e ainda para vencer a inércia, os atritos e demais perdas energéticas. Estão, obviamente, as duas carruagens ligadas por um cabo de aço. Se a água que o ciclo da chuva coloca no topo do santuário bracarense é suficiente para fazer subir as dezenas de milhares de visitantes, imagine-se a quantidade de passageiros e mercadorias que pode ser compensada pela água do rio Douro que desce desde Miranda até ao Pocinho! É certo que a transmissão da energia é feita por um cabo de aço. Na linha do Sabor, tal cabo é, obviamente, impraticável. Mas há um outro com maior eficiência e flexibilidade. Não é de aço. É de cobre. Proporciona-o a energia elétrica que a EDP aproveita e explora ao longo de todo o rio. E que faz reverter em benefício próprio sem se preocupar, sequer, em fazer refletir no custo que aqui pratica as economias que tem pela ausência de transporte e transformação, necessárias para a fazer chegar ao litoral. A tecnologia atual facilmente converte motores elétricos em geradores. As composições que descem podem gerar energia equivalente a grande parte da energia consumida pelas que sobem. Sabendo que esta é por natureza e mesmo por estratégia comercial, mais barata durante a noite do que durante o dia, basta que as mercadorias desçam durante o dia e subam no período noturno para obter o equilíbrio nas contas do transporte. 
Obviamente que a abertura das minas de ferro de Moncorvo, com a enormíssima quantidade de ferro a trazer até ao Pocinho, sem que haja nada que se possa comparar, para subir, vai fazer com que a energia lançada na rede seja largamente superior à que de lá se retira. Em vez de despesa há receita.  
Para além de evitar o inferno que seria o transporte rodoviário, com centenas de camiões diários a destruir as estradas, a poluirem o ambiente e a produzirem impensáveis níveis de ruído.