Do machado de pedra ao telemóvel

1 – Um amigo, com quem tenho tido o prazer de passar bons momentos a discorrer sobre os problemas éticos, políticos e sociais da Humanidade, pôs-me este desafio:
- Quando visitei a Bienal de Veneza 2017, encontrei lá um machado de pedra, de há 10 mil anos atrás, ao lado do IPHONE. Daqui a 10 mil anos, perguntou-me ele, qual pensas que será o objeto que irá aparecer a seguir ao iphone?
A minha resposta foi um pouco pessimista:
- Uma pedra, novamente!...
A desilusão do meu amigo, perante a minha resposta, tornou-se evidente quando me disse:
- Nada disso. Vai ser algo que simbolizará a imortalidade que a medicina vai conseguir para o ser humano!
 
2 – Francamente, eu gostava de ser tão otimista quanto o meu amigo. Só que, olhando para a história da Humanidade, só posso concluir que, daqui a 10 mil anos, já não deverá haver vida na Terra, e daí a minha opção pela pedra.
Na verdade, toda a história da Humanidade está marcada por conflitos entre nações, entre religiões, entre etnias, entre grupos sociais. E o que sobressai de todos esses conflitos é a sofisticação crescente do armamento bélico usado em cada um deles. Basta olharmos para as duas Guerras Mundiais do séc. XX. Se a primeira foi devastadora, a segunda, com a bomba atómica, ultrapassou todos os horrores dos conflitos anteriores. 
Por isso, a sequência «machado de pedra, telemóvel» podia ser substituída por uma outra, também ela fruto da ciência: «machado de pedra, bomba atómica».
 
3 – Com este olhar sobre o passado da Humanidade, teremos de concluir, obviamente, que os progressos da ciência foram extraordinários. No entanto, esses progressos tanto têm sido usados para o bem da Humanidade como para o seu mal, por força do egocentrismo humano que continua tão intenso e perturbador, senão mais ainda, como há 10 mil atrás. Basta olharmos para as lideranças das grandes potências dos nossos dias. Os Estados Unidos da América, com todo o seu potencial militar e económico-financeiro, elegeram como presidente alguém que vários psiquiatras americanos já diagnosticaram como louco; a Rússia, a 2ª maior potência mundial, está subordinada aos interesses mesquinhos dum narcisista como Putin; a Coreia do Norte é governada por um psicopata que nada fica a dever aos maiores psicopatas da história. Por outro lado, o agora tão famigerado terrorismo tem crescido por todo o lado, quer em quantidade quer na qualidade das armas de que dispõe.
 
4 - Por isso, pergunto: no capítulo dos valores sociais, que progressos é que a Humanidade registou desde Estaline, Hitler e todos os outros líderes criminosos que se têm aproveitado do poder dos Estados para impor, pela violência das armas, os seus interesses, os seus narcisismos, as suas paranoias e os seus delírios egocêntricos?... Francamente, acho que nenhuns.
Termino, pois, com uma nova pergunta: daqui a 10 mil anos vamos ter uma tecnologia que garanta a imortalidade do ser humano, como defende o meu amigo, ou nem sequer lá vamos chegar porque a ciência entretanto vai criar uma nova arma - muito mais sofisticada que as atuais armas nucleares - capaz de destruir toda a vida na Terra e, consequentemente, toda a Humanidade?...