Elegia da castanha

Eu não sei compor elegias. Sei que são composições poéticas onde prevalece o som musical da tristeza, da melancolia, onde sobressai o tom lamentoso de algo que se perdeu, que nunca mais volta.
No dia 4 de Novembro, numa manhã luminosa rumei a Lagarelhos, dias antes, em Lisboa, o distinto oftalmologista António Sampaio lembrou-me as suas idas a Castrelos a acompanhar o pai, ficando-lhe o registo memorialístico de castanheiros a pingarem ouriços, as folhas largas amareladas a embelezarem os montes. E, ante o retrato do conceituado médico surgiu-me a imagem do sol a caminho do horizonte a produzir estonteantes reflexos nos castanheiros grávidos de castanhas, brilhantes, a rechearem o chão dos caminhos para gáudio de meninos de pé descalço, e afadigadas mulheres cujas cruzes rangiam à medida da apanha dos frutos rilhados em cru, cozidos e servidos à ceia, assados no decorrer dos longos e ridentes serões entremeados de jogos de dupla adivinhação, avinhados por pingoletas saídas do pequeno garrafão de palhinha gasta, moída, numa textura da alma alegre pela cor ambarina das castanhas despidas da casca e da camisa. Ante o retrato escrevi eu, no percurso até a aldeia quase despovoada, perscrutando os arvoredos de múltiplos cromatismos, fazendo esforços no propósito de transfigurar o passado no figurado do presente.
Com uma imagem mental dando origem a grandes revelações, a pintura visual naquela manhã deixou-me desolado, na estrada só vi minúsculos ouriços, quase esquálidos, castanhas tísicas, desprovidas do seu brilho natural, por afinidade – a memória das manhãs de cornucópias luzentes qual maná – redundou no sentimento pungente da perda, perdidas porque não vindas as chuvas outonais essência do seu crescimento até atingirem a definição de reboludas.
Ah, se eu soubesse compor elegias!
 As mirradas castanhas consequência da prolongada estiagem seriam elemento primacial, crucial, seriam a corrente contínua da poética composição. Entro no quintal da minha casa porque a herdei, já selei a incumbência de uma visita, o meu parente Teófilo avisa-me de a Cândida andar a apanhar castanhas, tal como antes as mulheres da minha aldeia resistiam estoicamente às dores nas cruzes provenientes do inclemente esforço do desempenho da tarefa.
O Teófilo diz-me estar à espera maçãs muito boas, descubro-a, brilhantes quanto as dos impressionistas, as maçãs, perecem-me ser camoesas, estudadas e elogiadas pelo sumo sem acídulo pelo sábio Joaquim da Natividade, recolho-as. E, castanhas?
Resisto à tentação de voltar a trilhar o caminho até onde viver cercada a majestosa castanheira, a simplicidade da renúncia a contemplá-la é complexa, novas visões do passado no bojo esburacado bojo da árvore estudada, exaltada e inserida nas obras de homens de saber como Apolodro de Atenas, Dioscórides, Opiano, Paládio, Teofrasto, Ateneu e Virgílio, nascidos na Antiguidade Clássica, esconderijo nos jogos, de abrigo protector no pináculo das zurvadas, sombra mimosa num Verão de desencanto e desgostoso finar de namoro apaixonado, mandava a prudência evitar a aproximação. Afastei-me. Retorno a Bragança de bolsos vazios. De castanhas contrariando práticas do passado presente no momento, as quais levaram o genial Scappi a integrá-las no seu monumental receituário, a serem elevadas à alta condição de elemento fundamental de criações doceiras da pastelaria da Europa Central. Um clássico adianta” a visão dos olhos, o escutar das orelhas, a respiração da garganta ascendem diante do coração. Ele dá saída a todo o conhecimento. A língua repete todo o conhecimento.” A citação ajuda-me a estancar a mágoa.
Nos quarenta e cinco minutos de viagem principiei a amadurecer este texto. Se ficou bem maduro, o leitor ajuizará.