Em Homenagem ao Padre Ochoa

Os pulmões e a alma revigoram-se nestas bandas. O sítio tem nome de infância, Cerejais. Daqui enxergam-se terras de Moncorvo, para lá do vale do Sabor. Em dias de Primavera orgulho-me de viver nestas terras, tal o privilégio no alcance da vista: urzes, giestas, arçãs, lírios do campo, estevas e um céu imenso. A vastidão do horizonte extasia os viajantes que por aqui vagueiam. São muitos os caminheiros que se aventuram por estes lados pois que são devotos do Santuário Mariano. Procuram a solidão no vácuo, o espaço na liberdade, o sossego na quietude, o céu no transparente azul da visão panorâmica, a paz na elevação e a vida no fresco e respirável ar, inesgotável. Revigoram-se no crescendo da Fé. Gosto de os observar. São seres inquietos, de corpo e alma, os que por aqui passam. Vêm dos mais recônditos lugares do Portugal profundo com o objectivo de sossegar o corpo e o espírito. Não sou muito de me dar, apesar da idade. As amigas que por aqui habitam presenteiam os viajantes com sombras emprestadas para os repastos encestados, que regalam os olhos gulosos dos aldeões, senhores destes domínios. As mantas estendem-se por aquelas terras douradas e os tachos, panelas e toalhas quando destapadas insuflam nos ares vaporosos cheiros juvenis. Sabe bem observar o produto do meu trabalho, que regala os sabores daqueles manjares mastigados, juntamente com os ares frescos e oxigenados.
Ochoa é nome mágico que estas serras se habituaram a venerar. Concretizou um sonho, reconstruindo nestas montanhas os caminhos divinos do Calvário e da Loca. Os mistérios sagrados pavoneiam-se nas ondulações destes verdes ancestrais. Os cantares oriundos da Igreja transportam, através dos ventos, a união partilhada dos que anseiam a paz de espírito e a cura para os males do corpo. Sabe bem ouvir Ochoa, os olhos brilham quando descreve os engulhos que o trouxeram até aqui e as dádivas que a aldeia prestou a esta obra, com os braços e com haveres. O lar de idosos está ali, a provar a força deste homem visionário e bom. O forasteiro não ficará indiferente se se deixar levar, talvez flutuando, por estes vales selvagens que transportam as águas do Sabor para a correnteza enóloga do mágico Douro. Ouvi contar que o produto, criação de meus braços, está lá, no coração da Igreja. É, com certeza um símbolo. Simboliza a presença constante, mas para mim, o conforto e o afago. O cónego Ochoa e Cerejais são nomes umbilicalmente colados que voarão juntos para a eternidade.
Claro que sofro quando me despego e me liberto do que me demorou a construir, talvez a parir. Sinto amor de mãe quando toda aquela gente se aproxima de mim. Na altura do parto é um espanto poder observar os vapores de nevoeiro que são expelidos por aquelas bocas, penduradas em faces arroxeadas, que irradiam vida silvestre. Abeiram-se de mim e das minhas companheiras e procuram, no nosso regaço, uma celestial criação divina. Sei da virtude do meu produto. Dou luta, não me liberto facilmente da labuta de um ano. Suportei a asfixia do verão e senti no corpo a invernia agreste que muitas vezes me fustigou e pousou, gelada, no esqueleto que me suporta. È certo que, chegando a hora, dou-me, observando a satisfação de meus donos, dos patrões do meu trabalho. Nunca observei a transformação dos meus bens. Contaram-me que é digno de ser visto. Envolve esforço e alegria, solidez e liquefacção dourada. Quente.
E é aí, exactamente nesse ponto térmico, em que o fio escorre dourado e liberto, que eu atinjo o clímax. Daria um pouco da minha seiva para, num golpe de mágica, transformar-me em humano e poder observar, em segundos, o momento em que se cruza a trilogia: pão, azeite quente e uma criança. Sou uma árvore, sou uma oliveira, sou a Diva Transmontana…. 
 
# - Artigo publicado há dez anos num Semanário Transmontano