Entre o Coração e a Mente…

Talvez o fim da época balnear de 2017. Fim de tarde no adeus a um Agosto apetecível. A praia da Princesa, com vistas privilegiadas no apontar do Cabo Espichel, ali numa Caparica da outra margem do Tejo, em territórios da Mina de Ouro que deu nome a Almada, caminhos que ao Sul levam, o cenário convida à meditação.
Estendido na areia, de braços abertos no afago dos céus, enterrado na confortante areia, de pálpebras cerradas no aconchego da mente, liberto o pensamento, encontro-me a mim, falo comigo sentindo o bater das ondas que morrem na praia, exaustas e felizes.
Encontro-me numa fase da vida com deveres de agradecimento, em que o olhar para trás me atira para a frente. Agora, coisas da idade, liberto dos labirintos tontos nos percursos do crescer, um pouco alheado da avaliação dos outros, entro pelo universo adentro, flutuo entre os medos que me atormentaram, trespaço-me, dilacero os stresses de sufoco. Esses tempos, entendo hoje, foram apenas etapas de crescimento, no aprender doloroso do viver.
Ouvindo a fala do mar, o murmúrio do além, o pulsar oceânico, imagino-me como seria eu sem a interferência dos outros, pois que me senti amálgama, feito de mim e do universo humano onde me centrifuguei.
Agora, livre de horários, controlando o tempo, disponível para mim e para os outros, enterrando os rituais, posso escolher os trilhos e o rumo na confusão de uma encruzilhada.
O grasnar de uma gaivota em voo rasante, quebrou-me o torpor do me deixar ir nas ondas da mente, impeliu-me ao erguer, ao assento meditativo.
De olhos abertos perscrutando o horizonte, senti no ouvido uma brisa relembradora, evidente que usei a bomba humana, a mente, torneei ao longo da vida os tropeços naturais, impus a marca de meu ritmo. Mas foi a vida a dois e a partilha do rumo que tornou tudo muito mais fácil, as flores, as montanhas, a frescura dos rios, o rir, o sonho, o simples, tudo será alcançável se a paixão nos encharca, tudo flui se o querer assumir o comando.
 As vozes, as falas, as gargalhadas das quais conheço o timbre, fixaram-me no presente e no futuro. Ali, ao meu lado, estavam a nossa gente, o nosso sangue, todos os que com o nosso sangue deram origem à nossa gente: minha mulher, meus filho e filha, respectivos companheiros e meus netos, sementes plantadas, geradoras do continuar. Olhando-me através deles, porque me não quero excluído de seus mundos, desejo-lhes destreza no trilho da vida sabendo que a chave para a escolha da estrada estará algures Entre o Coração e a Mente…