A ética, a erva e a mula

Há 29 anos atrás, o presidente duma Junta de Freguesia do concelho de Bragança quis recandidatar-se por um partido diferente daquele pelo qual tinha sido eleito. Da primeira vez, tinha-se candidatado pelo partido do então presidente da Câmara, que perdeu a presidência desta, no ato eleitoral em que aquele ganhou a Junta de Freguesia. Por isso, nas eleições seguintes, este último quis recandidatar-se pelo partido do novo presidente de Câmara.
Perante esta mudança, um seu correligionário admoestou-o:
- Isso não é nada ético!...
- A ética é como a erva, vem uma mula e come-a!... - respondeu ele.
Lembrei-me deste episódio, ao assistir, nos últimos dias, ao caso do ex-secretário-geral do PSD, Feliciano Barreiras Duarte, que não só aldrabou o seu curriculum académico, como falsificou a assinatura duma professora portuguesa na Universidade de Berkeley. Além disso, enquanto deputado, declarou como morada a sua residência em casa dos pais, para beneficiar dum subsídio mensal de deslocação no valor aproximado de 1000.00 €.
 
Este caso do agora ex-secretário-geral do PSD reflete, infelizmente, uma prática muito comum entre políticos. Todos eles gostam de apregoar a ética na política, mas a grande maioria deles arruma-a, muito depressa, na gaveta do esquecimento - ou transforma-a em manjar para qualquer mula… - quando estão em causa os seus interesses materiais, seja um tachincho, seja um negociozinho ou outro benefício material qualquer. Por isso, este caso do ex-secretário-geral do PSD sugere-me várias observações.
 
1 – Em primeiro lugar, na política, como na religião, na justiça, na economia ou em qualquer outro setor da vida em sociedade, uma coisa é a teoria e outra, bem diferente, é a prática. Em teoria, todos os partidos são contra a corrupção. Mas, na prática, eu não conheço nenhum partido que tenha passado pelo poder em que não haja políticos corruptos. A corrupção começa em afirmarem-se motivados exclusivamente pelo bem comum, quando todos sabemos que a sua primeira motivação reside na apetência pelo dinheiro, pelo poder e pelo prestígio que a política lhes possa conferir. O bem comum vem sempre em segundo lugar.
 
2 - Em segundo lugar, Feliciano Barreiras Duarte veio justificar a sua demissão com o argumento de que foi alvo duma conspiração dos seus companheiros de partido contra Rui Rio. No entanto, ele não consegue justificar nem o seu curriculum, nem o facto de ter alterado a sua morada, enquanto deputado, colhendo, com isso, benefícios financeiros. E esta justificação vem agravar ainda mais a sua falta de sentido ético, porque tenta branqueá-la com mais uma mentira.
 
3 – Em terceiro lugar, como já muitos disseram, os agora denunciantes só podem ser companheiros de partido do denunciado. Sendo certamente assim, não se pode duvidar de que já sabiam desta situação há muito tempo. Então, porque é que só agora é que a denunciaram? Converteram-se de repente à ética na política ou, pura e simplesmente, querem correr com Rui Rio para eles voltarem ao poder? Por outras palavras, agiram por razões de ordem ética ou por puro gangsterismo ético-político?