Eu sei de um País…

Eu sei de um país onde impera a frustração. Só de saber que por aqui foi dado aconchego a quem trafica a força humana, física e intelectual, e que com esse negócio afasta o futuro a muitos jovens e desumaniza os do meio-da-vida, impele-me ao grito. Leio, ouço e sei que os ditos gigantes transnacionais contratam via outsourcings, com privados e com o meu Governo. Sei que os sindicatos que Abril gerou, não sendo esta gente do sector publico, votam-na ao ostracismo do esquecimento, preferem lutar por um horário de trinta e cinco horas semanais, para quem dorme sabendo do amanhã garantido.
Eu sei de um país onde a actual lei laboral dita quarenta anos de descontos e sessenta e seis anos e três meses para o conseguir da reforma sem penalizações.  Ao mesmo tempo observo os sindicatos, frutos democráticos, exigindo os sessenta anos e trinta e seis de descontos, apenas para os que protegidos estão dos cruéis despedimentos colectivos.
Eu sei de um país esmagado pelos ditos Direitos Adquiridos, concebidos na iluminada era Cavaco, Cadilhe o disse, direitos que se pavoneiam na intricada e poderosa rede corporativa, coveiros da igualdade. Calados, desaparecidos, convencidos, de braços caídos, aterrorizados, evaporados pela implacável governação do Senhor dos Passos, ei-los que regressam presunçosos, de nariz empinado, regateando o advir dos Direitos de Elite, de raça superior. Na rua, barafustando, colados aos únicos sindicatos nacionais, do funcionalismo público, eis de novo os médicos, os juízes, os enfermeiros, os funcionários judiciais, do fisco, dos policias, dos hospitais, do exército e forças militarizadas, das escolas, na imposição da diferença, da desigualdade, nada de comparações com a desgraçada raça privada.
Eu sei de um país, rejuvenescido por complexa governação, feliz o dia do nascimento, em que dois dos parceiros, convencidos que estão da exclusiva patente esquerdina, só ajudam no desbalançar orçamental carregando apenas o prato despesista, presenteando os que sustentam sua existência. Estes sindicatos vivem ainda nos tempos dos operários do carvão e metalurgia, do fato macaco, do barbudo Marx. Armaram o exército de combate, que substituiu aquela vestimenta pelo fato e gravata, armou-os com a única arma que conhecem, a greve em detrimento da mente e do acordo justo, da negociação que englobe Portugal inteiro, do Publico e do Privado.
Não acreditei nesta forma de governação, o tempo modelou-me, cansei-me do inútil protesto da esquerda rebelde, blasfemação sem governação. O tempo, que tudo consegue, acalmou-me a inquietude. Sou e sempre fui do socialismo democrático, gostaria de continuar a ver na estrada esta máquina aparentemente desengonçada mas eficiente.
No entanto, porque as referências que me aguentam, minguam e me desamparam, espero nova rota, nova estrada, nova alternativa, a alternativa equitativa da igualdade, da paz entre o privado e publico, para que o Mundo comente em uníssono, Eu sei de um País…