EUA: entre o anjo salvador e o demónio destruidor?

O Partido Republicano (PR), conservador e liberal, ganhou as eleições de 8 de Novembro de 2016 para o Congresso, o Senado e a Câmara de Representantes, nos EUA (Estados Unidos da América, vulgo América). Seduziu 47,6% (60,07 milhões) dos 129 milhões de votantes americanos em quase 200 milhões de eleitores, obtendo menos 400 mil votos do que o Partido Democrata e Hillary Clinton.
Devido ao método de Hondt, o PR obteve muitos mais grandes eleitores num Congresso de 538 membros: 247 deputados contra 191 do PD; e 51 senadores contra 49 do PD. E ainda 239 contra 193 na House (Câmara dos Representantes) (http://www.nytimes.com/elections/results/president) .
Com esta supremacia, Trump será facilmente confirmado Presidente dos EUA pelos 298 membros republicanos do Congresso, o que, ao contrário do pretorianismo europeu, subordina acção do Presidente ao Congresso fazendo a soberania residir no Povo ou nos representantes dele, como suseranos, e não nos executivos, como príncipes (na linguagem de Rousseau). Repare-se nas diferenças da leitura americana e europeia de Rousseau na elaboração das constituições anglo/americana e prussiano/francesa.
Os estadunidenses puseram assim fim a um período de políticas social-democratas das quais são de realçar o intervencionismo estatal na economia (políticas keynesianas) através do Quantitative Easing, entre 2009 e 2015 (empréstimos aos bancos em dificuldades); e o intervencionismo social através do Obamacare (programa saúde para todos).
Por que terão querido mudar os americanos? Diz-se pelo mundo dos articulistas nacionais e estrangeiros que por cinco razões; 1) o desemprego gerado pela globalização e pela deslocalização de empresas que ela acarretou; 2) o medo da imigração descontrolada, do desemprego, do abaixamento de salários e da descaracterização da população americana, já constituída em 38% por hispânicos, africanos e asiáticos, não estando contabilizados os multirraciais (https://www.publico.pt/mundo/noticia/eua-do-globalismo-ao-americanismo-1...); 3) o medo de o espanhol, face a esta realidade, se vir a tornar, em breve, uma língua oficial; 4) a subida rápida da religião islâmica, praticamente já em parceria com as religiões cristã católica e cristã evangélica, vulgo protestante, esta; 5) a progressiva perda de influência dos EUA na cena internacional face ao pacifismo de Obama e face aos avanços da Rússia e da China. Poderá haver uma sexta razão, o machismo dos WASP (White and anglo-saxon protestants, isto é, brancos e protestantes anglo-saxões). Será verdade?
Mais do que a vitória do PR, estas eleições parecem-me ser a vitória do medo face à perda de hegemonia dos valores dos WASP e da hegemonia económica, comercial e militar dos EUA no mundo. Em consequência, um apelo à retoma dos valores tradicionais, com risco de racismo, sexismo, populismo e nacionalismo exacerbados.
Quanto às mudanças de políticas, a retórica da campanha cederá agora o passo à força da realidade colocando alguns limites ao combate aos «diabos» da globalização, da imigração, do desemprego, da coloração da pele, dos muçulmanos, da NATO e do ObamaCare. Não sou tão pessimista quanto a maior parte dos analistas, mesmo quanto à expansão dos resultados pelo mundo. A ver vamos.