A evolução da desordem

Já foi dito que o mundo está ameaçado ao mesmo tempo pela ordem e pela desordem, parecendo significar que nem a ordem normativa internacional global é obedecida, até pelos membros do Conselho de Segurança da ONU; nem pelos que, considerando-se apenas parcialmente libertados pela descolonização do fim da segunda guerra mundial, encontram na violência, agravada pela capacidade que a tecnologia forneceu de o fraco vencer o forte, o caminha da não obediência às leis vigentes, alguns procurando obter outras leis, outros aparentemente considerando satisfatória uma anarquia enquanto dure. Deste modo, quando os analistas embaraçados tentam racionalizar a compreensão da variedade dos tipos de guerra em toda a parte, a rubrica do terrorismo vai sendo enriquecida por imaginações desvairadas. Até George W. Bush compreendeu que o perigo não vinha sobretudo dos Estados fortes, mas dos Estados fracos, ou, ainda mais de grupos unidos apenas pela cólera. Nesta data a evolução desse múltiplo terrorismo tem, como nova dimensão, o Terrorismo no ciberespaço, o mesmo é ter de admitir que as despesas de segurança e defesa crescem e com elas as dificuldades orçamentais que por todo o lado se verificam. A comunidade internacional dá mostras de compreender a necessidade de cooperação, para enfrentar este como que inesperado componente do globalismo, a exigir, na falta de conhecimento suficiente da estrutura, mas sofrendo os efeitos, valores comuns, cooperação, infelizmente intervenções das forças armadas, e tribunais internacionais sem recursos de soberanias. Uma das dificuldades é que também é duvidoso o conhecimento dos centros de poder internacional, que nem precisam de ser Estados, nem cobertos por normas jurídicas, nem sequer visíveis. A conclusão, neste caso expressa sem alegria, e como que sem remédio, é a de Bertrand Badie com o seu “Nós não estamos mais sós no mundo”, embora consiga incluir esperança de que chegar a uma governança mundial efetiva não está fora do nosso alcance. Os resultados obtidos, designadamente pela ONU, não têm sido muito animadores, embora não lhe possam ser recusados louvores pela palavra, e pelo esforço. O próprio Conselho de Segurança não consegue mobilizar-se no seu domínio, e dos governos, sobretudo dos responsáveis por Estados recentes, não é de esperar que sejam sempre fiéis às regras democráticas que a ONU consagra, porque a segurança que adotam os encaminha por necessidade para os excessos; Guantánamo é mais que suficiente, não para justificar a inovação, e práticas, mas parece documentar o embaraço mesmo de governantes respeitáveis, como Obama, que receberam a herança, ao que se vai vendo, sem benefício de inventário. É mesmo preocupante que intervenções feitas com fundamento claramente humanitário, não escapam à crítica, fundada ou ideológica, de ficarem manchadas pela acusação de abusos, quer na prática, quer nas consequências. Não é que o conceito de intervenção humanitária precise de esclarecimento, é que a barbaridade frequente do terrorismo incita ao excesso pela cólera e pelo ressentimento. Não faltam referências a heranças de passado colonial para explicar o terrorismo ou facetas dele, mas parece a pior das lembranças relacionar uma coisa com outra, quando, segundo as organizações internacionalmente relevantes, o que doutrinam e mobilizam é pacificar a recordação da vida que foi de submissão, para conseguir que a Declaração de Direitos seja um património mundial e o reencontro uma reconciliação. O tema da justiça internacional tornou-se relevante nas universidades que usam chamar a intervenção dos governos, para que a resposta ao terrorismo não seja o terrorismo, mesmo recorrendo a armas especiais, ou então será realmente de admitir que são tão perigosas a ordem como a desordem, que nenhum poder é confiável, que a corrida aos armamentos será um empenhamento sempre justificável. Mas a situação é tão excessivamente descontrolada e ameaçadora, que é difícil aos estrategas recomendarem “sanções inteligentes”, que de regra falharam na prevenção dos mais graves conflitos. A primeira e difícil medida é conseguir impedir o pessimismo, sabendo que a tarefa será longa. Tudo para que não continue a vigorar a sentença que professou Emily Dickinson, depois do ataque às Torres Gêmeas, de que “era tarde para o homem, mas ainda cedo para Deus”. Passou mais de uma década, e este apelo à transcendência, juntando as vozes que pedem inspiração, não conseguiram tornar efetivo o paradigma, que Kung indaga com devoção e esperança, de obediência efetiva ao projeto de colocar o diálogo no lugar da violência.