A FEIRA MEDIEVAL e o rei de Moncorvo!

Repito o que afirmei na minha crónica anterior: Nada tenho contra a Feira Medieval, mas não a qualquer preço nem de qualquer forma. Do preço já disse (quase) tudo o que tinha a dizer. Vejamos a forma.
Antes de decidir gastar tanto dinheiro, a autarquia fez, seguramente, uma análise SWOT, fundada, justificada e quantificada, examinando, cuidadamente, a situação de partida, o ponto de chegada, o caminho a percorrer, os custos e os ganhos. Terá concluído que a maior valia à estratégia de marketing e desenvolvimento turístico do concelho, como forma de diferenciação e atração, passava por apostar tudo numa Feira Medieval reportada ao tempo de D. Dinis. Há vários exemplos de escolhas acertadas e com bom retorno, no nosso distrito. Bragança optou pelas máscaras e pelos museus, Vinhais pelo fumeiro de porco bísaro, Macedo pelos caretos, Mirandela pela alheira, Miranda pela língua, entre outras. São todos “produtos” únicos, naturais, reconhecidos e diferenciadores de cada uma das terras de origem. 
Já a Feira Medieval de Moncorvo não tem nenhum desses atributos! Não é única (há dezenas por esse país fora) mas, sobretudo, não está ancorada na história, tradição e identidade moncorvense. O executivo optou por algo caro, mas fácil: comprou um enlatado para uma rápida entrada no “panorama nacional das feiras medievais”, mesmo que ali não tenha qualquer relevância! Faz lembrar o “carnaval brasileiro” da Mealhada que também lhe garante um lugar no “panorama nacional dos carnavais”! Mas é bom referir que a autarquia bairradina teve o bom senso de, na BTL, promover a sério as “4 maravilhas da Bairrada – água, pão, vinho e leitão” e não o “enredo sambista”. 
Se a aposta é a Feira Medieval, porque não fazer algo diferente, inédito, distinto e identificador das terras de Mendo Corvo? Em vez de se entregar por ajuste direto nas mãos de uma empresa comercial organizadora de festas e palhaçadas, porque não investir o mesmo montante (ou menos), na contratação de estudiosos e professores de história locais para desenharem e apontarem formas genuínas do tempo e do local mais adequados à nossa terra? Envolvendo de forma séria e empenhada, a comunidade escolar, a população e o museu do ferro!
D. Dinis é o monarca sistemática e repetitivamente escolhido, provavelmente, por ter outorgado o foral a Torre de Moncorvo. E daí? O que torna isso único? Único é o  Pinhal de Leiria e a Universidade de Coimbra... Mas o foral... Em que é que isso nos distingue e singulariza relativamente a tantas outras localidades portuguesas sejam cidades, vilas ou mesmo aldeias como Vila Real de Panóias, Aldeia das Gralhas, Oliveira do Conde ou Cacela Velha?
Podia ser por falta de alternativa! Não é. Moncorvo tem-na e é muito forte! Ao contrário das imensas localidades que devem o seu foral a um rei, poucas há que possam ostentar ligação sanguínea a um monarca. Moncorvo pode. Há um rei com raízes moncorvenses: D. António Prior do Crato!!!
D. António de Portugal, foi aclamado rei no castelo de Santarém, em 1580 e só abdicou em 1583 após ter sido derrotado nos Açores pelo exército espanhol, de onde saiu a caminho do seu exílio, em França. O último príncipe da dinastia de Avis era filho do Infante D. Luis e da moncorvense Violante Gomes a belíssima Pelicana, havendo quem garanta ser judia (ou cristã-nova). Que melhor argumento para fazer uma ponte natural para outro desígnio dos recursos imaterias de Moncorvo: o judaísmo? E isso sim, seria único, inovador, característico e irreprodutível. Distintivo, como convém! Moncorvo tem um enorme e invejável potencial. Promovê-lo não tem de ser difícil, nem caro. Haja vontade e talento!  A Feira Medieval podia ser a cereja em cima do bolo, se fosse de boa qualidade e, sobretudo, se houvesse bolo!