Fiel de Armazém…

Na memória que ainda me acompanha carrego lembranças de responsabilidades, evento de adultos. Viajo muitas vezes no túnel do tempo, gosto de me encontrar nas profundezas do crescimento, nos recordares felizes ou dolorosos.
Lá muito para trás, no Felgueiras dos anos 50, na pacata Vila que já lá vai, em casa de meus pais, nos recantos que me viram nascer, nas sombras onde joguei ao esconde-esconde, ao pilha, aos cowboys, ao berlinde, à sameirinha, à volta a Portugal, por ali um dia fui empossado, minha mãe nomeou-me guardador do galinheiro, a capoeira tinha de ser visitada pela manhã e à noite, no poleiro. Ao jantar apresentava contas, galos, garnisés, galinhas e pintos, as faltas eram levadas em conta, as empregadas, com minha mãe em pose de comando, reviravam o recinto. Estava sempre feito, ou porque contei mal ou porque não controlei os galináceos. Foram tempos difíceis e, porque não aguentava tamanha responsabilidade, pedi a demissão para não passar pela vergonha da exoneração. Hoje, a esta distancia, tenho a noção que foi atitude digna, única saída para gente de bem. Pensei em colocar, muitas vezes, este episódio no curriculum, numa de impressionar.
Já mais tarde, no Porto que me deu asas, donde voei para adulto, apanhei o olho do furacão, o epicentro do regresso em massa dos que retornaram das colónias, dos que viram duas vezes a vida descambar, por culpas várias que a História um dia julgará. Os tostões faziam falta, o snooker e matraquilhos, ópios juvenis dos bons velhos tempos, sugavam os rotos bolsos, os biscates eram bem-vindos. Nas férias grandes, três meses de verão, embarquei numa aventura de crescimento, no amealhar de experiência feito. Uma subsidiária da CNN, Companhia Nacional de Navegação, contratou-me juntamente com amigo de peito, controlaríamos os caixotes dos haveres dos ex-colonos, anotaríamos nomes inscritos e local de descarga no imenso cais de Leixões, nos arredores da ponte levadiça até à de Leça. No levantamento, com Guarda-Fiscal ao lado, era nossa obrigação indicar o paradeiro do que constava da Guia de Embarque.
Dava os primeiros passos no curso de Gestão de Empresas, no velho sótão da Universidade do Porto, ali para os Leões. As Contabilidades foram-me apresentadas e o Inventário deu nas vistas: rigor nas anotações, datas e numerações, códigos e assinaturas. Fácil, sabedoria da paciência, apenas isso. Responsabilidades.
Pestanejo, regresso vertiginosamente ao sec. XXI, aterro no meu canto, no reino da Geringonça, abençoado calhambeque. O que separa os tempos idos da actualidade, é o de um abismo técnico que pariu a portentosa informática da informação, de um controlo nunca antes imaginado.
No coração do Estado, depositado nas boas mãos do exército que nos garante soberania, o arsenal bélico está á guarda, pensávamos que zelosamente.
Sabemos que hoje em dia bastam códigos, datas e assinaturas responsáveis. O disparo de uma máquina de punho sobre um código de barras ativará toda a sequência informativa e de controlo. No dia proclamado do assalto em Tancos nada ficamos a saber: o que foi roubado, entre que dias, qual a data da stocagem, da falta, que assinaturas responsabilizavam. O depositar de espadas, de passa culpas, é vergonha que avilta, que repugnará qualquer humilde e responsável Fiel de Armazém…