A filoxera ataca o espírito

Todos sabemos quão perniciosos foram e continuam a ser os efeitos da filoxera nos vinhedos. Vinda dos Estados Unidos propagou-se a todos os continentes causando tremendos prejuízos, levando até à erradicação de vinhas originando miséria, ruínas, emigração e tremendos relatos sobre os seus efeitos aos quais não escapou o Nordeste. Verifique-se a corografia e logo percebemos a amplitude da catástrofe.
A filoxera inimiga das uvas tem sido combatida eficazmente em várias zonas do globo, talvez por isso trasmudou-se encontrando abrigo nos corações e nas mentes de mulheres e homens de um vitalismo sectário, abstruso, ortodoxo, inimigo declarado do vital valor da diversidade de opiniões, da expressão do pensamento, da opção por esta ou aquela corrente ideológica respeitadora dos valores civilizacionais impeditivos de todos os totalitarismos – religião, raça, origem, sexo –, em prol da livre/liberdade de sermos nós próprios tanto quanto nenhum de nós próprios nega o infinito. Sim, é pretensão desmesurada, escrevo-a assim ao modo da fórmula empregue contra os malefícios da filoxera.
O leitor pode chamar-me exagerado, desprovido do sentido da medida, no intento de contrariar o leitor peço-lhe o favor de estender o seu fio do horizonte (Eduardo Prado Coelho) e mesmo a nível doméstico verifique o contínuo esbarrondar do respeitar a opinião discordante, do pleno exercício do direito a explicar pontos de vista fora do leito do politicamente correcto, o recente episódio de silenciamento de Jaime Nogueira Pinto na Universidade Nova é eloquente exemplo.
Há trinta anos após transpor o crivo selectivo iniciei a frequência de um mestrado na dita Universidade. Durante quatro semestres naquele espaço ouvi e respondi a professores, debati e critiquei conforme os impulsos do momento, nunca por nunca retive a mínima sensação de constrangimento que não significa aceitação dos meus pontos de vista por quem quer que seja. E, agora, nesta Universidade pública, sustentada pelos contribuintes rasga-se o pano da harmonia discordante.
O historiador e politólogo Rui Tavares trouxe para o terreiro dos contraditórios casos semelhantes ocorridos aqui e ali, até na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Na Faculdade coimbrã a pretexto de não ser lugar destinado a confrontos ideológicos o Director negou a cedência de sala para o efeito. O confronto seria entre o «esquerdista» Rui Tavares e o poeta também consultor do Presidente da República, Pedro Mexia da +área social-democrata.
Os episódios acima referidos, uma gota no poço da ortodoxia militante, chegam e sobejam para escorar a ânima deste artigo, longe do alarmismo basta recorrermos à cronologia do século passado, se fizermos esse exercício saltam à vista desarmada grotescos e sangrentos acontecimentos cuja origem vem do triunfo das pulsões radicais contrárias ao direito à diferença.
Posso aquietar-me momentaneamente lendo pensadores e poetas paradigmas da arguta resistência às tribulações impeditivas o usufruto da representação do pensamento, no entanto, verificar o avanço da filoxera contra o espírito invade-me o Temor e Tremor, do crer sem ver, tão bem descrito pelo inquieto Kierkegaard. Ventos isolacionistas e discriminatórios sopram fortes no Mundo.