FINADOS

A nossa morte é uma certeza sem desfalques, sem excepções, toca a todos. Todos os povos, mesmo os primitivos não escondem o pesar ante o desaparecimento dos parentes, honrando-os através de cerimónias de vários tons e sons, assinalando o local onde foram sepultados.
Para lá dos povos primitivos todos conhecemos as diversas fórmulas empregues pelos povos evoluídos no exaltar dos parentes falecidos, as quais integravam um banquete fúnebre.
Os gregos organizavam o perideipnon acreditando na eficácia deste rito complementar da sepulta de os seus participantes serem hóspedes do defunto, celebrando novo banquete no aniversário da sua morte recordando a sua existência. Os romanos além de celebrarem o banquete na campa do morto, realizavam a ceia fúnebre, em casa, na atura do enterro. O rito religioso de honrar os mortos através de um banquete entre os Hebreus e os primitivos cristãos da Palestina estão suficientemente documentado razão a dispensar-me de o lembrar, lembro-me sim de em menino de na companhia da minha avó ir a enterros cujo final era precedido de distribuição de pão trigo e uma moeda, conforme as posses da família do defunto.
A veneração dos mortos no México é uma mescla das tradições aztecas e os princípios do catolicismo pregado após a conquista, os antropólogos e sociólogos estudam diferenças e confluências, sem tal propósito evoco o Dia de Finados sem o saudosismo da meninice, sim de modo interesseiro, isto é: revigorar os afectos e amores relativamente aos meus ancestrais, especialmente os mais intimamente ligados.
Nós continuamos a lidar mal com o tabu da morte, nas sociedades ocidentais tão propagandeadas por serem aglomerados sociais abertos, relativamente à morte procuramos não a mencionar familiarmente (riscante contradição), quando nos bate à porta arrebatando um nosso parente apressamos a sua tramitação fúnebre, estando a generalizar-se o banimento de sinais de luto, bem como as salvas de palmas na altura da urna desaparecer da nossa vista. O bater das palmas das mãos é soa-me a bacoco modo de acentuarmos a perda da pessoa falecida, dando inteira razão aos postulados de Debord na sua obra Sociedade do Espectáculo.
De Abril de 2014, até agora usei gravata preta em sinal de luto. Fui obrigado a zangar-me quando sexagenário de lustroso currículo profissional arremeteu contra a fita simbólica, nem à segunda explicação procurou entender. Do corte de mangas ao corte de relações foi um ápice.
O exemplo pessoal apenas realça o óbvio – a morte apavora-nos –, daí imitamos os meninos na fuga à realidade, a cor preta em refulgentes cetins e tafetás é atractiva, no tocante à expressão do passamento ao reino dos mortos é molesta.
Após o enaltecimento dos Santos no dia de todos eles, a Igreja leva a cabo cerimónias a avisar-nos de não podermos fugir à passagem ao estado de cinza, pó, nada mais. Por assim ser obrigo-me a estudar a amplitude e o alcance do termo Éon, que segundo Aristóteles significa «ser sempre», «tempo infinito». Lembrar os mortos faz-nos bem, obriga-nos a pensar na finitude perante o «tempo infinito».
Armando Fernandes
PS. Morreu João Lobo Antunes. Portugal perdeu um notável cientista, milhares de pessoas ficam a dever-lhe anos de vida. A Senhora da gadanha não poupa ninguém.