Ganhámos! E agora?

Acabado o prélio futebolístico os canais televisivos procuram engodar as audiências sem saírem do tema do pontapé na bola, a indústria multiplica as fórmulas de o fazer, o campeonato não tarda, as fogueiras clubísticas dispõem de grandes quantidades de lena para consumir de noite, de dia, à hora do meio-dia. Nem o império de Carlos V.
Se Huizinga teorizou admiravelmente sobre o papel do jogo na construção das organizações, se Roger Callois continuou a pensar e repensar o cerne e adjacências do efeito do jogo nas sociedades, se a erudita Mary Beard especialista do mundo global romano salienta o efeito do ócio na sociedade imperial, se Norbert Elias explicou as relações entre o jogo e as representações do poder, os estrategas da indústria do futebol leram estes e outros autores e aprenderam a aperfeiçoar os mecanismos geradores de gigantescas receitas. No Reino Unido o tema é efervescente pois a saída da Comunidade pode colocar em causa a livre circulação dos jogadores.
Há muitos anos o romancista e omnívoro crítico literário João Gaspar Simões foi conduzido ao calvário por manifestar desdém ante o desporto-rei, retenham, o futebol é rei do desporto.
O crítico escapou à crucificação, não escapou, nem continua a escapar, à aversão dos críticos universitários, redimiu-se publicando artigos no jornal de maior relevo, A Bola. O jornal estava impedido de chamar aos jogadores benfiquistas Diabos Vermelhos, no entanto, detinha um enorme poder popular a ponto de incomodar o manhoso de Santa Comba. A elite situacionista torcia pelo Sporting como uma tese de mestrado o documentou.
O dito rei-futebol escurece o horizonte cultural das nações e comunidades transformando os resistentes em curiosidades a exibir nos dias nomeados, ou como jarrões anchos de presunção porque decoram as sessões inseridas nos programas justificativos de equipamentos impregnados de burocracia entretida na engorda de estatísticas através do emprego de truques, inocentes uns, parolos outros. Daí, em face a tão crua realidade: E agora?
As coisas são como são, lembrava o arguto Victor Cunha Rego, muita falta faz, sendo o futebol imbatível n, temos de o combater recorrendo aos seus magnificentes activos de múltiplas tipologias. Como? Fazer fazendo, assim recomendava o poeta.
Será difícil criarmos uma poética e filosofia do futebol? Julgo acarretar dificuldades de maior. Pensemos no futebol e na literatura. Só neste segmento existem aliciantes materiais susceptíveis de balizarem acções a encherem meses a fio, podendo construírem-se nas várias gavetas existentes nas vilas e cidades. Concretamente refiro-me a: arquivos, bibliotecas, campos desportivos, centros artísticos, conservatórios, escolas, estádios, gares de transportes, institutos, jardins, monumentos, museus, praças, parques, teatros e tutti-quanti.
Não faltando lugares impõe-se a escolha dos actores a integrarem e dirigirem os figurantes (públicos) de várias proveniências e formações.
Proposta bizarra, dirão os leitores. Talvez.
Manter o padrão é fomentar a iliteracia, é fomentar o apagamento de fulgores, é nivelar por baixo, é aumentar a desigualdade entre os jovens cujos pais investem neles a diferença formativa prestando-lhe cuidados na sua aculturação, é estreitar o ascender dos menos prósperos aos patamares onde se constrói a prosperidade. É o aumento da desigualdade social. É isso que queremos? Eu não