HÁ QUEM TENHA E HÁ QUEM NÃO TENHA

Não é todos os dias e sem razão de monta que o povo sai à rua para se manifestar. Umas vezes contra, mais raramente a favor. Só nos grandes momentos da nossa vida coletiva ou na defesa de grandes causas, o povo saiu à rua, unido e solidário, para apoiar e celebrar. A vitória da Seleção Nacional de Futebol provocou uma explosão de alegria que atingiu toda a diáspora portuguesa e contagiou todos os que se exprimem na língua de Camões, de Guimarães Rosa, de Pepetela, de Mia Couto, de Amílcar Cabral, de Alda Espírito Santo e de Xanana Gusmão. Em tempos, os portugueses uniram-se e saíram à rua “por Timor”. Agora, uniram-se com Timor. A imagem de Xanana, pendurado num carro erguendo o braço com a bandeira portuguesa, vale mais que mil palavras de legenda.
Ortega e Gasset escreveu que “não são as circunstâncias que decidem a nossa vida. As circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso caráter”. O caráter pode fazer toda a diferença. A determinação e a convicção de que valia a pena, quer do treinador quer da equipa, foram determinantes para o resultado alcançado. O caráter que uns têm e outros não. Pessoas de caráter, como António Guterres, que quer colocar o seu saber e a sua experiência ao serviço dos outros, inspiram-nos e reconciliam-nos com o mundo. Quem não tem caráter, serve-se dos outros em proveito próprio. Os exemplos abundam. Não vou fazer juízos de intenção, mas Durão Barroso, ao optar por colocar os seus conhecimentos e a sua experiência europeia ao serviço do Goldman Sachs, pôs-se a jeito. Durão Barroso foi presidente da Comissão Europeia durante dez anos. Justa ou injustamente, ele é um dos rostos da crise que mudou a vida de tantos europeus e sacrificou tantas famílias. Ao ser recrutado pelo Goldman Sachs, o banco que muitos apontam como um dos principais responsáveis de crise e que, no início dos anos 2000, ajudara a Grécia a mascarar o seu défice orçamental para enganar Bruxelas e poder aderir à moeda única, o ex-presidente não dignifica a função que desempenhou.
A afirmação de Ortega e Gasset assenta que nem uma luva a António Costa e ao caso das sanções. Durante várias semanas, só faltou fazerem-se apostas sobre o valor das sanções que a Comissão Europeia iria aplicar a Portugal por causa do défice de 2013-2015 (responsabilidade do governo PSD/CDS). Houve até quem se esforçasse para que as coisas corressem mal e quem quisesse atirar as responsabilidades passadas para o atual governo. E quem mentisse e calcasse o interesse nacional com o objetivo de criar dificuldades à “geringonça”. António Costa fez tudo para evitar as sanções que classificou de injustas, porque prejudicariam os já muito sacrificados portugueses, e imorais, porque a Comissão Europeia não devia penalizar o resultado das políticas que impôs e elogiou. Os argumentos e a ação diplomática do executivo resultaram em sanções zero. Foi uma vitória do governo PS e em particular do primeiro-ministro. Uma vitória do caráter. Que uns têm e outros não.