A opinião de ...

Tempo de festa e de fogo

Agosto é, entre nós, tempo de família, de reencontros e de festa. Festa em honra dos santos padroeiros e, regra geral, de Nossa Senhora, dedicada a uma das suas facetas (Graças, Assumpção, etc.).
As cidades engalanam-se, para receber emigrantes, professores, médicos, estudantes, funcionários públicos e outros, migrados em outras terras do país. A expressão «Festas da Cidade», que deverá ser substituída por «Festas do Concelho» ganha todo o sentido como arte e tradição de bem receber e acolher mas também de chamar a atenção para que o Poder que assim acolhe tenha retorno e confirmação de simpatias e de votos. É sempre assim: como bem referiu Humphrey Hogart, no seu ensaio sobre a «Dádiva», esta nunca pode ter só um sentido. Tem volta, como diz o povo quando empresta alguma coisa.
Com a Democracia, as festas das cidades enraizaram-se, cultivando, em muitas delas, uma identidade cultural e social própria. Associam tradição e modernidade, num caldo por vezes pouco saboroso para gostos elaborados mas a contento da diversidade de todos os paladares. Incluem muitos excessos: de comida, de ruído, de despesa pública. Por vezes, os que trabalham sofrem duas vezes: porque trabalham e porque não podem descansar para trabalhar bem. É assim a civilização do ócio e do lazer. Ambos trazem muita leviandade.
Mas Agosto não é só a festa. É também fogo. Que dirão um adolescente ou um jovem de 30 anos sobre os fogos no Verão? Dirão que eles são naturais. Ou seja, para eles, os fogos estão naturalizados, isto é, fazem parte do Verão e Verão sem fogo e sem o espectáculo do fogo, dos bombeiros, das pessoas a fugir e a chorar e do espectáculo das televisões não é Verão. Que estes adolescentes e jovens digam isto parece-me consequência do ambiente em que nasceram e viveram mas que um Engenheiro Agrónomo, com elevadas funções públicas diga, em pleno horário nobre da televisão que os fogos são imprescindíveis para o ordenamento do território e da floresta parece-me de lesa-humanidade e de profunda leviandade.
De qualquer modo, os fogos aí estão e, em anos de eleições com muita mais violência, a demonstrar que eles não são apenas efeitos de vinganças, invejas, malquerer, forma de tornar a madeira e a pasta de papel mais baratas, forma de criação de espaço para pastos e caça, oportunidade para empresários e trabalhadores das empresas que apagam fogos ganharem a vida e oportunidade para os bombeiros obterem mais algum financiamento.
É por isso difícil dizer qual a causa dos fogos mas a natural não chegará a 1%. Era assim na minha infância, quando toda a gente sabia logo o que tinha acontecido como causa do fogo e toda a gente ia ajudar a apagá-lo. Agora, para além de não haver pessoas, as que há ficam-se a ver o espectáculo.
Tenho muita pena que o meu país esteja assim mas já não tenho tempo para lhe poder valer.

Edição
3641