Incêndios: Como Travar a Praga?!

Recordo-me, aquando do “grito” corajoso das famigeradas “Mães de Bragança”, de se terem levantado algumas vozes, mesmo femininas (difundidas nas têvês) a favor da permanência das “cheirósinhas” nesta terra, com base no inquestionável argumento de que tal realidade era importante para a economia local.
Desde que neste país, há mais de 40 anos, os incêndios florestais se tornaram numa grande fatalidade, o povo, em conversas de café, sem provas documentais, verbaliza a opinião de que há muita gentinha a “governar-se” à custa dos ditos. O vulgo vil não acredita na teoria de que o cu da garrafa de vidro partida seja uma fonte de ignição, nem que os incêndios, com as dimensões e frequência dos últimos verões, sejam, per si, o resultado de más políticas florestais ou da abandono ou falta de cultivo dos campos.
Perante os boatos dos lobbies (não vamos ser ingénuos ao ponto de acreditar que o Ministério Público os desconhece!), seria urgente apurar se eles têm ou não fundamento. Estou convencido que a polícia judiciária, tida como uma das melhores do mundo, haveria de desmontar facilmente o enigma e, ao mesmo tempo, negar a “crença” de que os crimes de fogo posto são difíceis de provar, se, como é evidente, lhes fossem dados todos os meios para o fazer.
A palavra “prevenção”, tão em voga, parece ser vazia de sentido. Mesmo o mais ignorante dos homens na matéria sabe que a prevenção é o melhor método para evitar os incêndios. É certo que a prevenção, a vigilância, a limpeza permanente das florestas, a reactivação dos postos de vigia e das casas florestais, como meios de dissuasão dos pirómanos, exigem recursos que implicam consideráveis verbas saídas do Orçamento de Estado, não deixando, contudo, de ser uma ninharia, comparadas com os milhões que se esbanjam no combate aos incêndios.
Como vulgares cidadãos, é-nos difícil compreender e aceitar que neste Verão (e início de Outono) tenham morrido mais de cem pessoas vítimas dos incêndios - cinco vezes mais do que as registadas na Califórnia, com uma população de mais de 37 milhões de habitantes, que teve este ano os mais mortíferos incêndios florestais dos últimos cem anos.
E quando todos devíamos estar unidos, em homenagem àqueles que pereceram numa luta desigual, procurando as melhores soluções para que os mesmos erros não se repitam, verificamos que, num momento em que o país está de luto, há quem, no mais puro e demagógico populismo, se aproveite politicamente da situação, na obediência ao velho princípio do “quanto pior, melhor”.
Ainda que pouco avisado na questão dos incêndios, permito-me, no entanto, deixar aqui duas ideias que poderão ser decisivas na eficácia do combate aos incêndios: profissionalizar urgentemente os bombeiros e, não menos importante, de uma vez por todas, clarificar o papel dos soldados da paz e da Protecção Civil. Para quem está de fora, dá a ideia de haver descoordenação no “teatro de operações”, cuja origem, diz-se, está na “guerra das capelinhas”, marca tuga, por excelência.
Costumo dizer aos meus amigos, sem qualquer ironia, que Portugal, com o clima, a costa marítima e a gastronomia que tem, se não fossem os incêndios, a economia paralela e a corrupção, éramos um dos países mais ricos e recomendáveis do mundo.
Cabe, pois, aos nossos políticos (e os tempos são favoráveis) decidir ou não estarmos à mercê do “irreversível” fado. Não mudar a página é permitir que o país continue a arder, literal e metaforicamente.