Irresponsabilidades pilatianas!...

Já várias vezes escrevi a propósito dos incêndios, dos seus efeitos negativos, quer ao nível da materialidade, quer da imaterialidade individual e coletiva. Das marcas que marcam e não desmarcam, dos reflexos profundamente condicionadores, na vida e nas vidas de muitas famílias e comunidades. Do luto, da reorganização e da prevenção, evitando a devastação.
Tal como eu, muitas outras pessoas o fazem e o fizeram, certamente. Algumas delas com especializações académicas e científicas bem definidas e com grande sabedoria neste domínio, sustentada e coerente. Há muitos anos que muita gente diz o mesmo, não ficando indiferente à gravidade de uma confrangedora situação que, relativamente aos incêndios, se arrasta e, tantas vezes, nos enrasca. Porém, não é menos verdade que o país que se indigna perante as tragédias decorrentes dos incêndios, que se multiplicam e complicam, é o mesmo que pouco faz para mudar o estado das coisas, se torna negligente perante a inércia de quem ordena, dirige e pensa como “ser superior e singularmente inteligente”. Não sei se é por falta de coragem dos políticos que nos dirigem, para legislar ou fazer cumprir a lei, ou se é por medo de “beliscar” um considerável número de “seres/parasitas” que gravitam, se governam e nos desgovernam, nestes ofuscados, fumados e obscuros ambientes, revelando posturas assustadoramente prepotentes. Neste como noutros contextos, somos uma sociedade de verdadeiros negligentes conformadamente inconformados, que só reagimos ou questionamos, quando os “nossos umbigos” estão verdadeiramente ameaçados. Um país onde o planeamento a longo prazo escassa e o medo que os efeitos de uma alteração, séria e sustentada, provoque uma mudança positiva que, politicamente, “arrasa”.
Pelos vistos pouco adianta escrever, falar, apresentar estudos sustentados, devidamente programados, ou andar por aí a “pregar”, se os ouvidos e as convicções dos poderes instalados e interesses ocultos, continuarem a purgar, convencidos de que a certeza está na sua forma pensar e comandar.
Entretanto, lavando pilatianamente as mãos, ancorados num alveolar palaciano, responsável formal em tudo e, na prática, responsável em nada, vamos assistindo a tragédias com uma dimensão, cujo humanismo será de difícil qualificação e, transversalmente, jamais se poderá saldar a quantificação. Mesmo que, após os acontecimentos fatais recentes, os comunicados, os discursos,   as conferências de imprensa, sejam repletas de números, quantidades logísticas, adjetivos e vocábulos repetidos até à exaustão, que se destinam mais a impressionar, do que a sua eficácia avaliar.
Dramas, impensáveis num país civilizado, difíceis de entender, ou mesmo imaginar, reveladores de irresponsabilidades pilatianas, não só no que toca à prevenção, como à coordenação e eficácia na ação. E não há justificação que a razão possa justificar. Tudo o que tem acontecido em Portugal, foi muito para além do justificável. O País ficou chocado, horrorizado, num misto de consternação e indignação, face à tragédia, na região de Pedrógão Grande. Não me parecendo que, ao ver as repetidas imagens televisivas, não fiquem sensibilizadas, mesmo as sensibilidades mais insensíveis, o que aconteceu, que todo o mundo viu e assistiu, deve deixar-nos profundamente abalados, tristes, consternados, diria mesmo, envergonhados.
Naturalmente que, perante esta situação de crise humanitária e não só, houve muitas e variadas reações, com governantes a desdobrarem-se no acompanhamento de proximidade às populações, alguns deles não conseguindo esconder a tristeza, as preocupações e as emoções. Mas isso não esbate tudo o resto. E é muito e muito forte.Sendo certo que esta tragédia vai marcar, por muitos anos, as pessoas, as famílias, as comunidades envolvidas e o país em geral, a todos ao níveis, não será menos verdade que, daqui para a frente, se torna necessário enfrentar os problemas que nos afligem neste contexto, estudar as causas e programar novas e diferentes formas de atuar, nomeadamente no que toca à prevenção e ao compromisso de que novas eficazes medidas virão, mesmo ao nível do combate a incêndios e à inerente coordenação. Não esquecendo que mais importante que a argumentação é a eficácia na ação. É que as vidas humanas não têm preço.