Isto é da Joana…

Vão longe os tempos de menino, tempos de brincares e dos primeiros passos na aprendizagem, no interiorizar de regras rumo à socialização. Após a liberdade total nas vielas da aldeia que o viu nascer, protegido por todos os olhos do lugarejo, feliz no meio dos que o amavam, Manel entrou pelos portões da Escola Primária, sitio onde moravam os medos.
Cedo aprendeu os limites que por ali imperavam, horas para tudo: entrar, recreio e final de aula. Dentro da sala o silêncio enchia os ares, a vozeirão do professor amedrontava, os deveres atazanavam os dormires, humedecendo os colchões em noites de terror. Aprendeu as letras, juntou-as, misturou os números, adicionou e subtraiu, teve de multiplicar para sobreviver, conheceu a virtude do dividir, mas a lição estava dada, as regras cresciam com seu corpo. O relógio deu-se a conhecer, o compasso do tempo ordenava e Manel tinha de cumprir, ali e para toda a vida.
Aqui mesmo, nesta escola, nas intermináveis e lúdicas brincadeiras ao peão, com o famoso rachador, nunca mais esqueceu a trafulhice do Bezerra, o grandalhão da turma que, mesmo perdendo, ganhava sempre. Eis que tropeçara, cedo, na Lei do Mais Forte.
Já na Quarta-Classe, sendo um dos melhores da aula, ficou a saber que pertencia a classe social desprezada, sem direitos, mas com muitos deveres. A Professora, pois que os alunos eram poucos, teria de chumbar alguns, marcariam passo, repetiriam no ano seguinte, seriam repetentes, sem orgulho. A junção dos atrasados com a adição dos alunos que chegariam da Terceira Classe, manteria quórum para a Turma do ano seguinte, justificando o posto do Professor. Aprendeu, uma vez mais dolorosamente, a Lei dos Senhores que mandam, talvez os Donos disto Tudo.
Apesar dos tropeços que coartavam o andar, com vontade e ajuda familiar, de afagos, de amores, de solidariedade e de amealhares, fez-se gente. Porque cresceu no meio dos valores que dão felicidade, fazendo das pequenas coisas o elixir da vida e jovialidade, Manel singrou, realizou-se. É com humildade, sem ressentimentos, que gosta de estender a vista trespassando os horizontes, de voar através da mente para lá das montanhas que lhe barram a visão. Vem aqui muitas vezes quando procura o berço memorial que o estabiliza.
No topo da Frieira, nos arredores de enregelado fraguedo, no interior de casario construído por seu pai que Deus tem, na frente da lareira que crepita no enfarruscado Lar, dá consigo a pensar numa das pedras base da nossa democracia, a Justiça. Porque aprendeu as regras, quase sempre dolorosamente, não entende o desprezo a que muitas vezes, por interesse alheio, elas são votadas.
Quanto ao nosso mais “Célebre Arguido” se investigado, em super segredo, e depois eventualmente preso, grande lição de democracia. Tal como Madoff.
Tendo sido encarcerado, vexado, e só depois investigado, o desfecho deste “Caso”, seja qual for o resultado, abalará os alicerces democráticos. Organize-se um Frente a Frente, na televisão, nós ajuizaremos, entre Magistrados e Advogados, para que os portugueses entendam de vez: existem prazos ou não?
Porque há pareceres contra, com este rumo e por falta de informação, parece mesmo, que Isto é da Joana…