Janelas

De repente, sem mais, só porque lhe apetece, certo dia um brigantino sai da Sá Carneiro, passa pela Praça Cavaleiro Ferreira, saúda o carteiro imortalizado no bronze ao cimo da rua Cinco de Outubro, desce a Almirante Reis, passa ao lado do Solar Bragançano, acena a uns amigos sentados na esplanada do Flórida, contorna o Cruzeiro, evita algumas beatas que se esgueiram para dentro da Sé, caminha confiante para o Chave d’Ouro e pára de repente, mesmo em frente à sua fachada arredondada, e verifica que ao lado da porta que dá para a rua Direita, está agora uma janela saliente com portadas de madeira trancadas com um cravelho de pau.
O brigantino, estendendo um olhar para as ameias do castelo por cima da silhueta do monumento aos combatentes da grande guerra, ao fundo da rua, atreve-se, descravelha a janela e abre-a escancaradamente. Um clique, um ligeiro clarão e uma imagem que se desenha no painel interior, parada no início, ganhando movimento pouco depois. Um rosto escuro e marcado pelo sol e calor tropical encara-o de frente. Não  há dúvida, tem instantaneamente, à sua frente um bragantino. Não, não há erro nenhum. Por magia ou, melhor, por uso adequado da tecnologia, um brigantino, nado e criado no nordeste transmontano, num instante fica do outro lado de uma câmara, vendo e sendo visto por um bragantino, nascido e crescido em terras do norte brasileiro, em Bragança do Pará.
E que interesse pode ter tal conexão que o desenvolvimento tecnológico tornou quase trivial e corriqueiro? Tem a técnica esta virtualidade de, banalizando certos aspetos anteriormente singulares e únicos, permitir que deles façamos uso de forma especial para construir coisas novas e significantes.
Uma janela permite que duas praças centrais de terras homónimas, separadas por milhares de quilómetros de oceano (tanto mar! Tanto mar...) possam ombrear, que os odores do naco de carne mirandesa vindos do Solar Bragançano, possam perfumar os pratos de Tacacá e Caruru confecionados numa fogueira junto a uma praia fluvial brasileira, que o Amazonas receba as águas do Fervença e do Sabor, que a saudade do comboio que deixou de apitar ao cimo da Avenida João da Cruz se misture com o lamento do Maria Fumaça que já não interrompe as noturnas baladas do paraense Boi Bumbá.
E, para além disso, prosseguindo uma tarefa já inciada pela Professora Nazaré Paes de Carvalho, será possível elaborar em simultâneo, com o apoio e o empenho de cada uma das escolas de cá e de lá, a quatro mãos, livros que nos falam de cada uma das terras de cá e de lá e que dão igualmente pelo nome de Bragança, Oeiras, Odivelas, Belém, Alcobaça, Chaves, Sintra, Faro, Ourém, Sousel e tantas outras já devidamente identificadas e caracterizadas, num número que ultrapassa as três dezenas.
 
Janelas Luso-Amazónicas é apenas uma forma expedita de usar a internet e todas as suas capacidades para estreitar laços, fazer pontes, encurtar distâncias, partilhar saberes e tradições entre duas partes do globo continuando o sonho de séculos, bem português, olhando para um mar que une muito mais do que separa.
É a nova expressão de um abraço que, existindo há muito, se prolonga e estende no tempo e no espaço e que assim ganha nova expressão ou, como diria uma velho e saudoso amigo, fica mais arrochado.