Lições da História…

Atravesso amiúde o Tejo, extasio-me na ponte Salazar/25 de Abril, arranco da Charneca de Caparica, onde vivo e adormeço ouvindo as falas do oceano. Quando a caminho da capital, abençoado pelo Cristo Rei que de braços estendidos me abraça, contemplo Lisboa luminosa que atrai e conquista o mundo. De branco imaculado, pedra da serra dos Candeeiros, obriga à contemplação, sufoca, espanta, extasia e provoca a aventura pelo desejo de a conhecer.
Várias são as opções de entrada, primo a da Praça de Espanha, agacho-me sob o Aqueduto das Águas Livres, atravesso a amplitude da Grande Praça, sala de visitas opulenta que, bem no centro, ostenta o Arco de São Bento ali remontado pela Edilidade de João Soares.
Do lado direito impõe-se o Palácio de Palhavã/Embaixada de Espanha, mandado erigir por D. João V, para albergar os seus três filhos bastardos que, por isso mesmo, ficaram conhecidos como Meninos de Palhavã.
Quer o Aqueduto quer este Palácio e ainda o convento de Mafra apenas foram possíveis com a abastância dos dinheiros baratos oriundos do Brasil. Pelo corte das remessas, condicionante externa, a gestão do Reino complicou-se.
Na travessia do Campo Pequeno, dou de caras com a Praça de Touros e, por reflexo, aponto o olhar á monumental Sede da C.G.de Depósitos na João XXI onde, em tempos idos, laborou a fábrica de tijolo, fornecedora da matéria prima para a construção do Campo Pequeno. Esta fábrica instalou-se no local para aquele efeito e, após a construção, faliu por alteração da condicionante externa que a sustentou.
Chegado ao Areeiro que é, sem dúvida, um dos locais que mais me extasia pois que me transporta para outros mundos e onde dou largas á minha mais que fértil imaginação. Ao contemplar a elevação, o que resta do areeiro, que vai desde as Olaias e se desloca ao longo da Gago Coutinho (inclui os terrenos onde se desenrola o Rock in Rio), fico a saber que Lisboa foi “fundo de mar” e que, por isso mesmo, o estuário do Tejo é uma actualidade, consequência duma condicionante externa que se alterou, o mar recuou, legando-nos a bela arriba-fóssil da Caparica.
Neste momento, em Portugal, um homem encontra-se no núcleo, controverso, de um epicentro. Sabe que o que nos trouxe até aqui, baixa do défice, não foi só a agilidade da geringonça, foi também: baixa do barril de petróleo, baixa do dólar, turismo, recuperação da economia global e confiança dos portugueses. Experimentado, sabe que bastam algumas mudanças e voltaremos ao sufoco: a instabilidade nalgumas regiões do globo poderão subir repentinamente o brent e destabilizar a economia e finança global, o turismo poderá reorientar-se, a pujança económica internacional poderá estancar não puxando pela recuperação portuguesa. Desbaratar as nossas poupanças, verter nosso suor, distribuir apenas na função publica cavando o fosso, será decisão errática de quem não quer antever a alteração das condicionantes externas, relembrar fim das eras Cavaco e Sócrates. O bom aluno, o bom decisor, tem em conta as Lições da História…