«Línguas» de «fogo»

Antes de mais, quero desejar bom trabalho aos novos autarcas, recém-empossados. No caso de Bragança, dia 20. Hernâni Dias, Presidente da Câmara Municipal, disse que será um trabalho de continuidade com os últimos 20 anos, adaptado aos desafios que as mudanças económicas, políticas, sociais e tecnológicas colocam.
No mais, neste artigo, pretende-se reflectir sobre o país que ardeu pelo fogo de Hefesto (mitologia grega) ou de Vulcano (mitologia romana) e que «arde» de «fogo que arde sem se ver» (Luís Vaz de Camões) por erros governativos, por erros e omissões administrativo-organizacionais, por oportunismos políticos e por negligência e ignorância da realidade do país.
O puxão de orelhas do Presidente da República ao Governo pareceu-me, em primeiro lugar, um sacudir de responsabilidades pelo próprio Presidente mas oportuno embora em termos e modos inadequados pois o Presidente não pode estabelecer o mandato nem da Assembleia da República nem do Governo, e aquela linguagem não é própria de um trabalho presidencial, que deve pautar-se pela discrição e pela diplomacia. Mas, enfim, o Presidente, não o querendo, também se deixou «arder» neste «fogo» que agitou o fim do prolongamento metereológico do Verão pela mãe-natureza, contra a qual só conseguiremos lutar, em matéria de fogos, se lhe retirarmos a matéria combustível.
Reagiu depressa o Governo e, para lá da demissão da Ministra da Administração Interna, Professora Doutora Constança Urbano de Sousa, e seus secretários de estado, reuniu em Conselho de Ministros, no passado dia 21.
O Presidente elogiou os apoios saídos desta reunião e deu-me razão na interpretação que fiz no penúltimo parágrafo. Deu o dito por não dito, tirou o tapete à moção de censura do CDS e deixou construir a ideia do reforço da posição do Governo. Há oportunismos políticos que matam. Este, do CDS, à custa da tragédia do fogo, acabará por matar o valor da lição que o Presidente quis dar ao Governo e, em vez de fragilizar este, dar-lhe-á força. Tal como uma libelinha, o Presidente voa de nenúfar em nenúfar.
Com tudo isto, um Primeiro-Ministro medíocre enquanto governante mas excelente na arte da negociação e da manipulação políticas, vai triunfando à custa dos tiros no pé dos partidos da Oposição e da impossibilidade de o Presidente se lhes colar.
A má gestão do território e da floresta, depois do incêndio de Pedrógão Grande, com a desculpa de que se estava à espera do relatório da comissão de sábios, proporcionou a desgraça dos dias 15 a 17 de Outubro. E, ainda hoje, não parece ter-se compreendido que, por mais pessoal e comissões que se ponham no terreno e no papel, ou se anula a matéria combustível ou, então, a fúria da mãe-natureza pode revelar a insignificância dos seres humanos e das suas melhores realizações perante os fenómenos naturais extremos.
Nota: quero pedir desculpa a Bruno Rodrigues pelo lapso de não ter referido a sua autoria da fotografia da pomba da paz aqui publicada em artigo anterior.