A Má Vizinhança

 
Faço parte de uma geração em que os bons vizinhos eram considerados como da família. O valor da amizade cimentada na relação quotidiana, de confiança e respeito, com aqueles que partilhavam a mesma rua e o mesmo bairro, e cujo segredo estava em levar à letra aquele sábio conselho de que nos devemos dar bem com os vizinhos, porque são eles quem, nas horas de aflição, nos podem valer.
Os tempos mudaram, a sociedade evolui e, naturalmente, estes princípios por que se regiam as relações comunitárias de outrora caíram em desuso: nos prédios habitacionais, em regra, ou os condóminos não se falam, ou o único contacto/relação existente resume-se ao maquinal e fugidio “olá, bom dia!”, no inevitável encontro diário no elevador.
O propósito desta minha introdução é comentar um lamentável episódio que ocorreu no pretérito dia 3 de Setembro, Sábado, por ocasião de uma festa organizada pela gerência do agradável restaurante Ares de Serra, localizado no Bairro de S. Tiago, em Bragança.
O evento, que teve por objectivo a despedida da escaldante e protelada época de veraneio, além do jantar, servido dentro do restaurante e na esplanada, contou com a participação da conhecida banda musical Lacre, que tem como elemento mais sonante a sua talentosa vocalista, Carolina, que partilha a sociedade do Ares de Serra com a simpática Ana Gonçalves.
Embora não tenha estado presente nessa “celebração da vida”, no convívio – nesse dia eu e o meu habitual grupo de amigos estivemos a renovar os votos de amizade em volta de um cordeiro assado na brasa -, fiz-me “representar” por um elemento da família. Das minhas fontes, obtive a informação de que, por volta das 00H20, quando a festa estava no seu ponto alto, foi interrompida por ordem da Polícia (que, de forma educada, agiu em conformidade), na sequência de uma denúncia telefónica feita por alguém que morava no bairro, por se sentir incomodado pelo barulho da música.
            Ao que consta, o som - que, no momento, era produzido não pela banda Lacre (essa actuou só na hora do jantar), mas por um duo  musical composto por dois jovens brigantinos que se disponibilizaram a animaram o ambiente -, estava, em termos de decibéis, dentro dos limites do razoável,  mesmo tratando-se de uma zona residencial.
Resultante da minha formação moral, tenho tendência, enquanto cidadão, munícipe e condómino, a respeitar quem, de forma esporádica, num momento festivo, me possa causar transtorno, privando-me do sono, com os excessos dele decorrentes. Porque hoje sou eu a incomodar o vizinho, ou por causa de uma festa de aniversário dum filho, que se prolongou para além do horário permitido por lei, ou porque o fumo das sardinhas que assei no meu quintal entrou, sem o puder controlar, em casa de quem não as comeu; amanhã invertem-se os papéis
Num outro texto publicado na penúltima edição deste jornal, tive a oportunidade de dar os parabéns ao município de Bragança, pelo excelente ideia de dinamizar o centro da cidade, permitindo que, durante os meses de Julho e Agosto, esse espaço urbano fosse palco de vários eventos culturais, musicais e de um novo conceito de convívio ao ar livre, com as esplanadas dos cafés apinhadas de gente. Talvez aqui houvesse meia dúzia de pessoas que se sentiram desconfortáveis com a saudável dinâmica da urbe. Ainda que prejudicados, não fizeram “birra”, porque, afinal, Agosto é só uma vez por ano.
Não aceitar esta realidade, impedindo que o bom senso e a tolerância sejam o paradigma que regula as relações entre pessoas que partilham o mesmo bairro, é puro acto de egoísmo. E se o motivo invocado por quem se sente lesado pelo divertimento dos outros for a interrupção do sono reparador, nunca é de mais lembrar que o ser humano, que tem mecanismos biológicos de compensação, passa 1/3 da vida a dormir.