A MAIORIA DESERDADA

Quando Josué de Castro obrigou a concentrar as atenções de todos os responsáveis sobre a geografia da fome, sem distinção entre povos separados pelo Muro de Berlim, não foi animado de um espírito de derrotismo, mas com esperança de que a solução do flagelo levasse à mobilização contra a realidade inquietante. Já no distante Setembro de 2010, foi com uma mensagem de esperança que o incansável Secretário‑ Geral da ONU Ban-Ki-Moon, proclamava que “os objetivos de Desenvolvimento do Milénio são ambiciosos, mas realizáveis”, não acreditando que o trajeto proposto e o objetivo assumido percorreriam antes um trajeto de utopia à fronteira agravada da pobreza, não apenas material, mas também do credo dos valores. Merecem meditação as palavras de Don Reeves (2002), quando escreveu que “pobreza é o leite de uma mãe secando por falta de alimentação, ou crianças, excessivamente famintas para conseguirem estar atentas na escola, pobreza é viver amontoado sob um plástico em Calcutá, encolhido sob um beiral durante uma tempestade em São Paulo, ou num abrigo em Washington D.C., pobreza é ver o filho morrer por falta de vacinação que teria custado poucos cêntimos, e sem nunca terem visto um médico… pobreza é sentir-se sem capacidade, sem dignidade ou esperança”. Estas amargas palavras ainda não previam que a semântica final viria a acolher aquilo que se desenrola no Mediterrâneo, no turbilhão dos conflitos armados, e, para resumir, no longe que os factos se encontram do sonho utópico que animou a intervenção de Josué de Castro. Talvez o desastre plural tenha encontrado síntese na expressão de Derber ao escrever sobre o que chamou maioria deserdada. Uma expressão que procura encontrar sugestões para aceitar a indispensável invenção do Estado, mas para concluir que sem reforma do Leviathan (1951), em qualquer das suas múltiplas formas, históricas e actuais, parece sucessivamente estar a exigir conseguir adequação entre os poderes que assume e a realidade que o frustra. A última forma que os europeus encontraram, há tão poucos anos, com o traço fundamental de substituir a soberania absoluta pela União em busca de conceito estratégico consolidador, ela própria dá mostras de necessitar ser repensada, para a acabar aproveitando da experiência vivida, ou a reformar em termos de que a solidariedade seja finalmente garantia da igual dignidade dos seus povos, sem hierarquias formais sabidas ou ocultas e toleradas. A evidência, já suficientemente sofrida, é que a maioria deserdada já não é uma realidade limitada ao chamado terceiro mundo antes da descolonização, que os ideais da governação são deformados pelas autoridades avulsas que decidem nas áreas críticas das finanças e da economia, que a diferença entre povos ricos e pobres se evidencia, e que os inesperados perigos coletivos, com tendência para mundiais, se perfilam, levando a pobreza de muitos a reconhecê-los ao sentir-se “sem capacidade, sem dignidade, ou esperança”. É disto que se compõe a nova “maioria deserdada”, envolvida por combates militares inúteis de preço sem medida, em fugas sem outra solução final que não seja a morte, sem governação internacional capaz de impor o conjunto de proclamações, diretivas, pareceres, tratados, que se multiplicam para serem ineficazes. Analistas interrogam-se sobre o paradeiro do desenvolvimento, sob novas formas de combater a fome e defender a saúde, sobre como impedir a degradação do ambiente, sobre as crescentes divisões sociais, como organizar o convívio pacífico das etnias, das culturas, das religiões, como aplacar a violência política interna e internacional. A reforma, sem forma encontrada, do Leviathan que se multiplicou em formas, não pode esperar, começando pela cúpula que é o globalismo à espera do renascimento do pensamento e ação da ONU.