Maldito Fosso

 
Sem dúvida alguma que o 25 de Abril avança coxo, com fragilidade no caminhar. Vai longe o sonho, a minha Universidade no querido Porto, lá no topo da Cordoaria, mesmo ao lado dos Clérigos, foi testemunha, escondeu-nos muitas vezes dos atropelos, das investidas, da irracionalidade dum regime moribundo.
Lá no sótão, junto às telhas, fervilhava Economia, com Débitos e Créditos a alertar para as diferenças, os Balanços caíam sempre para o mesmo lado, os Saldos pareciam descalibrados. Graças a alguns, poucos, Professores destemidos e sem medos, descobrimos outros rumos possíveis, outras formas de distribuição. A riqueza criada, sempre criada pela junção do capital com a força do trabalho, muscular ou cerebral, nunca chegava aos lares do povo, aos anónimos que sustentavam a Nação.
Com enraivecida saudade recordo, pouco antes da noite da Liberdade, a carga policial que desabou sobre os estudantes concentrados nos Leões, gritando de pulmão insuflado, contra a surdez instalada, que bastava. Exigíamos Liberdade mas, acima de tudo Igualdade.
Fui constatando ao longo destes quarenta anos, que o sonho de outrora não se transformou em realidade, pois que as diferenças se agigantaram. Cedo percebi o assalto ao poder, os políticos instalaram-se, o compadrio tresandava, tresanda. Cresci, envelheci com outros que os media nos mostram à exaustão. Gestores naqueles tempos imberbes, hoje luzidios, de ares circunspectos e superiores, de grisalho respeitador, afirmam descaradamente que a Gestão da CGD não pode ser entregue a desconhecidos, a jovens, mas unicamente aos mesmos de sempre, de novo a eles pois que na testa ostentam a marca dos únicos capazes. Que triste sina a nossa.
Sei, minha alma sangra pelas vezes que o afirmei, que a desgraça portuguesa se encontra no afronto das Corporações, nos aviltantes direitos adquiridos de uns, contra o esquecimento da maioria, dos outros. Políticos encurralados e cobardes, sem pinga estadista, foram cedendo aos gritos de maiorias organizadas ao redor de sindicatos sectários, eles mesmo ditadores.
Chegados exaustos à desgraçada actualidade, observamos a queda, aos tombos, da gigantesca massa trabalhadora do sector privado. O gráfico mostra, em rigidez matemática, que os desempregados são, na totalidade, oriundos de falências privadas, muitas de origem criminosa. O inferno familiar adensou-se, as reformas antecipadas e ridículas, com descontos fiscais e sociais de uma vida, mostram-nos o outro lado do espelho.
E eis que a cereja chega para ser colocada em cima do bolo. Com a ajuda dos desgraçados desempregados e aposentados do privado o Governo de todos nós, que transporta a chama de Abril, decide integrar nos quadros os funcionários públicos precários.
A equidade, a igualdade, a moral, todas impõem a simultânea integração dos funcionários públicos e privados. Mete água a mais este Maldito Fosso…