Manuel Ferreira

Eu não sei se os leitores já leram O Livro das Cidades, do notável escritor cubano Cabrera Infante, o qual pagou duramente ter enfrentado e criticado acidulamente o ditador Fidel Castro. Aquele que gosta de pensar a cidade ganha lendo a estrídula obra do autor de Três Tristes Tigres. Nas minhas vindas a Bragança gosto de perguntar coisas e loisas sobre a amada cidade, sempre, embora nutra afeição e estima por Santarém, Barcelona e Boston. Porém, Bragança é Bragança, sempre. O Alberto Fernandes e o Manuel Pereira, sendo também amigos e amantes da velha urbe do Braganção, sempre que há ensejo satisfazem-me a curiosidade, daí no decorrer de prolongada e estridente serão de perguntas e respostas terá surgido a ideia de se construir um pequeno livro dedicado a evocar Figuras notáveis e notórias bragançanas. Ora, nestas cousas de causas não são exclusivo de fulano ou beltrano, por isso quando no quadro de uma apreciação Mensageiro entabulada com o então seu Director, o Padre Calado Rodrigues, veio à colação o desejo do livro, de imediato aceite e logo sugeriu o nome de Manuel Ferreira para o engrandecer ilustrando os textos. Assumiu o Padre Calado a responsabilidade de o convencer a aceitar o encargo. E, convenceu. Regressado ao domicílio não tardei a receber o pedido de reunião onde participaria o Arquitecto de modo a discutirmos os pormenores da obra e métodos expeditos a empreender. Percebi estar ante petição clara da passagem lúdica à formal e material. Voltei a Bragança, o Artista que eu admirava, mas conhecia mal, muito mal, além de excelente e divertido aedo, detinha e expunha preocupações de índole intelectual para lá das de cunho artístico. Surpreendido pelo seu vitalismo não circunscrito ao da pintura, das volumetrias, da encenação e das amenidades cinegéticas perguntei ao velho amigo Armando Alves meu estimado amigo, do grupo dos 4X20, a sua opinião sobre o antigo colega de estudos no Porto. Fiquei alegre com a resposta. O primeiro texto dedicado a um homem forçudo, o Boneca; outros se seguiram resultantes de vivazes trocas de impressões inimigas do tédio burocrata. Nas idas à cidade onde as figuras nas ceram ou viveram, duas, felizmente vivas, sofreram, amaram, foram felizes e infelizes. Nos nossos encontros comentávamos às reactividades aos textos e ilustrações chegadas ao nosso conhecimento. A senhora professora e o senhor advogado não gostaram de determinado escrito, a senhora funcionária cultural e o senhor professor de uma ilustração, tais opiniões mereciam-nos o começo de optimistas conversas relativas à visão das coisas, o El Greco ou o Modigliani pintavam daquele forma por verem mal, nós víamos a nossa maneira. Nem mais, nem menos! Assim, o explicávamos mutuamente enquanto Manuel Ferreira tinha a amabilidade de me explicar as razões de determinada pintura, escultura ou vestimenta que prendiam a atenção no seu museu afectivo, a sua casa. Todas as figuras lhe mereceram denodo e entusiasmo, no entanto, o Tio Bloso, e o Manuel Brasileiro, só os dois, motivaram-no a recordar e explicar episódios e atitudes de grávida exuberância faceta. Terminado, impresso e apresentado o livrinho, festejámos, rareámos os encontros, só quando me cruzava com o filho escultor sabia do seu viver. Morreu o Mestre compositor, sim, hábil compositor de cores, cujo talento está representado em centenas de obras (pena ter desaparecido O mural do extinto Café Central). Perdi um amigo, a cidade perdeu uma Notável figura.